Era o seu casulo doméstico. A tevê ligada naquele velho programa dominical, a chuva banhando tudo lá fora, e o cobertor devorando-a num abraço quente. Os olhos sem vida, repetindo metodicamente o que acontecia todo final-de-semana. Não gostava de pessoas. Tinha medo delas. Vez ou outra, as mãos se moviam e pressionavam o botão do controle remoto. Tudo automático. O batom borrado, o preto nos olhos, ali estava. Inútil. Acompanhada de solidão numa tarde de domingo. Chove mais, ela pensava. As gotas cadentes e o frio despertavam-lhe algo mais ou menos próximo da felicidade. É claro que ela imaginava como seria se fosse diferente. Embrulhava-se mais no cobertor e o pensamento esvanecia. Repudiava ímpetos de motivação e qualquer coisa que pudesse fazê-la sentir-se melhor. Ela sabia que era uma vergonha. Que sua vida não fazia nem faria diferença. Que ela nunca voaria mariposa. Marlboro Red perdido nos lábios, esperava os ponteiros girarem, implorava que girassem rápido. Envolta no calor felpudo, inexpressiva. Um dia o fim chegaria, com certeza. Quanto mais cedo, melhor. Odiava a própria estagnação, a medíocre droga da metamorfose não-concluída. Mas não era capaz de acabar com tudo sozinha. Esperava, então, o momento, no ritual invariável da clausura. E seguia assim. Apenas uma lagarta.
domingo, 19 de setembro de 2010
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Obrigada por me descrever =)hahahaha ótimo como sempre! bjosss
ResponderExcluir*__*
ResponderExcluirObrigado pelos comentários. Fico feliz quando gostam dos textos! :D
ResponderExcluir