Lembra a gente estudando matemática? Você me dizendo coisas impossíveis sobre álgebra e funções, e eu com a cabeça a flutuar por todos os lugares em que não houvesse números. Você me disse ei, não tá prestando atenção? e eu finalmente prestei. Prestei atenção à sua boca pronunciando aquelas coisas ininteligíveis, mas que me pareciam tão belas aos ouvidos. Seus dentes brilhavam. Você me olhou com aquela cara tão sua que trazia uma miscelânea linda de repreensão e riso. Não tá me ouvindo, né? Não sei por que ainda insisto em tentar te ensinar alguma coisa, seu bobo. Olha, o conjunto-solução é o intervalo de menos infinito a mais infinito. Desenhou-me o oito deitado, o lemniscata, naquele traço contorcido que não acaba nunca. Infinito. Naquele dia, véspera de prova, fim de ano, eu não aprendi coisa alguma de matemática. Mas você conseguiu me ensinar algo. Infinito. Naquele dia eu conheci o infinito.
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Flash
Recorrente e redundante.
Ouço o som do All Star pressionando os pedregulhos e desejo que esta sensação não finde nunca. Eternamente embriagado, seria eternamente bom. Sigo, sigo andando, braços e mente abertos, sem quaisquer preocupações frívolas que me possam dizer respeito. E que o amanhã demore. Demore bastante. Para que a dor-de-cabeça da ressaca e da normalidade me atinja o mais tarde possível.
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Divã
Sabe, doutor, a verdade é que não sei porque estou aqui. Vi sua placa e fui tomado por uma coisa que não sei definir. Mas cá estou, não é? Então. Tá tudo tão difícil, doutor, o senhor nem imagina. É discussão, briga, dívida, e eu não faço ideia de como sair desta situação. Meu único refúgio são os livros. E meus únicos amigos ultimamente têm sido Nietzsche, Rimbaud e Freud. Freud é conhecido seu, não é, doutor? Desculpe. O fato é que preciso dar um jeito nisso. Não aguento, não aguento. Minha mulher nem imagina o turbilhão que destrói minhas poucas seguranças. Nesse momento ela deve estar lá em casa, esbravejando, onde diabos eu estou, e que vai queimar todo aquele monte de papel inútil. Palavra não paga conta, ela diz. Isso dói. É, doutor, não é nada fácil. Estou com toneladas de problemas a me esmagar a mente. Creio que estou ficando louco. Acho que já estou. Ah, meu Deus, seria muito engraçado, se não fosse essa merda que é. Desculpe, doutor, saiu sem querer. Preciso sumir, sabe, é isso. Esquecer um pouco essa porra de vida que desce pela garganta qual comida fria. Eu sei, doutor, vou tentar me controlar. Quem dera eu pudesse ir-me embora pra Pasárgada e ser amigo do rei. Mas chega dessas baboseiras literárias, estou cansando o senhor. Acho que não devia ter vindo. Veja o senhor, há anos que eu não chorava. Esqueça. Esqueça-me. Não, doutor, eu é que peço desculpas. Definitivamente, não devia ter vindo. Adeus. Adeus, doutor. Vou lá tomar mais um copo dessa cerveja choca que é a minha existência.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
sábado, 16 de outubro de 2010
Ruptura
Um sábado esquecido de 1990.
Enrolado recém-nascido no cobertor, ele jazia indiferente numa noite chuvosa. Estava consciente, por quê? Uma xícara inacabada de café e meio cigarro ardendo sobre o assoalho. Um livro aberto sobre o peito. Nietzsche mais chuva é bom. Não é? De vez em quando, assoava o nariz, maldita alergia! Olhava o catarro verde-amarelo com ar divertido, ou algo parecido com diversão. Não tinha nojo. Bebeu mais um gole do líquido negro, frio, que seja. Deixou o Ecce Homo definitivamente de lado. E, esforçando-se sobremaneira, libertou-se da morna prisão de lã. Não gostava das vicissitudes da vida, elas eram por demais inoportunas. Se bem que no fundo, bem lá dentro daquilo que chamam de consciência, ele sabia que a coisa toda era culpa dele. Lavou a cara, olhou-se no espelho do pequeno banheiro inundado pela luz cor de âmbar. Viu dois olhos opacos, um nariz sujo de catarro - droga de alergia! - e uma boca mais risco do que boca. Pegou a toalha vermelho-sangue com pulso duro e esfregou-a com força no rosto, quem sabe ela mudasse algum traço naquela tela assimétrica. Rindo pela primeira vez, lembrou-se de quantas vezes havia se masturbado naquele lavabo mínimo. Homenagens prestadas. Eufemismos. Afastou as reminiscências, hoje não queria ser nostálgico. Nostalgia infame, essa. Apagou a luz. Apanhou o cigarro do chão da sala e sorveu a última gota que descansava no côncavo da xícara. Pensou em Brigitte, como é mesmo o nome verdadeiro dela? Brigitte... Na sua transformação menino-homem, a francesa de mentira ocupava papel de destaque. Não gostaria de entregar-se assim às memórias, mas via que era ineficaz. Dirigiu-se à varanda e deixou-se lavar o corpo. Por que não a alma? Desatou a correr pela grama, louco, feliz, inexplicável, inesperado. Foda-se tudo, pensou. Promoveria a própria vicissitude. A vicissitude do ser. Estava acostumado com a melancolia acompanhando-o diariamente. Mas hoje não. Hoje não.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Tentativa
A preguiça me consome, mais voraz do que nunca, e eu me pergunto por que diabos ainda insisto nessa merda de conto, sabendo que ele não vai acabar. Por que continuo fritando os miolos, esperançoso, em vez de dar uma trepada, sentindo os tremores deliciosos e ouvindo os gemidos cadenciados dela, que me enchem de tesão. Essa maldita fixação que tenho pelas palavras, droga! É forte, deveras forte. O lápis trêmulo na mão, ansiando por concluir o inconcluível, quando eu queria mesmo era apagar. Apagar a mim mesmo e apagar a chama fulgurante daquele corpo. Eu já me disse para esquecer os números. Esquecer. Deixar que as coisas venham quando tiverem de vir. "Vai, bota um fone no ouvido e relaxa, seu idiota. Larga mão de ficar esquentando com uns rabiscos de grafite sobre o papel!". Mas não consigo concordar com a consciência. Sei o que é melhor; sigo no que acaba comigo. No que me mata. Ah, que vontade de roçar a língua naquelas curvas! Provar cada arrepio, cada mínimo suspiro de prazer. Só que as palavras me prendem, essas vadias. Essas vadias que me são imprescindíveis para viver. Desejo, tara, obsessão. Qualquer nome cabe, e não cabe nenhum nome. Tem um quê de visceral que foge ao meu entendimento. Sei apenas que é assim. Sim, é contraditório. Antitético. Amo as palavras. Odeio-as. Elas me aproximam e afastam da minha fonte, tão sempre fonte. Quero beber. Quero gozar. Quero escrever. Quero parar. É sempre indagação inútil.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Viagem
Na biblioteca escura, a única luz era proveniente do globo iluminado, analisado atentamente pela garotinha. Aqui é a França, da Torre Eiffel. Sempre que via fotos da imensa estrutura férrea parisiense, ela se imaginava lá em cima, contemplando a magnitude da cidade-luz. Tem o canal da Mancha, depois é a Inglaterra. Ela vira muita coisa sobre a terra da rainha. Fantasiava os chás, os ônibus vermelhos, as cabines telefônicas e, sobretudo, era fixa a ideia do Big Ben parado. Seria divertido. Ou caótico. A gente vai mais pra lá, daí tem a Suíça. Duas coisas: um Rolex e os chocolates. Apenas. Agora desce um monte, e chega na África do Sul. Lá tem diamantes e marfim, ela ouvira falar. Quem sabe quando fosse mais velha. Vai pra direita mais um tanto, e para na Austrália. Ela vira a foto de um coala, que lindinho!, um dia ela teria um coala. Girando e girando o globo, atravessou o planeta inteiro. Perdeu-se, alegre e triste, em lembranças, datas, imagens, sonhos, até que chegou ao Brasil. Pronto, estou no Brasil. Estou aqui. E agora? E agora? Mal sabia que aquele 'e agora?' seria presença constante por toda uma vida. Coitada, tão novinha e já fadada a crescer em meio a crises. Apagou o globo, sentou-se na imensa cadeira de couro. Era grande demais para ela. A cadeira e todo o resto. Tudo era grande demais.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Processo
SENTIR
S A N G R A R
IMAGINAR
S A N G R A R
IMAGINAR
A S S O M B R A (R) E N A S C E R
BUSCARCOM - PLETAR
V I V E R
crescer
AMAAAAR
ESCREVÉR
TRANSCENDER
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Recompensa
A joaninha sobe obstinada pela verde haste da rosa, escalando os acúleos com determinação. Cai. Recomeça a trajetória. Outra queda, novo reinício. Suas anteninhas trêmulas captam o pungente aroma que vem de cima. Está lá, ela sabe. Arrasta suas bolinhas, sempre ascendendo. Chega, enfim, à corola avermelhada, onde delicia-se com o dulcíssimo néctar, nutritiva recompensa pelo não-esmorecer.
domingo, 3 de outubro de 2010
Sorvete
- Eu quero chocolate e baunilha.
- Saindo uma casquinha de chocolate e baunilha pro campeão aqui!
- É casquinha de chocolate, né?
- Claro, Pedrinho, eu sei que é a sua favorita!
- Obrigado, seu Antônio!
...
- Ei, menina, você não gosta de sorvete?
- Gosto, mas minha mãe disse que ela não pode comprar. Esse aí tá gostoso?
- Aham, é de chocolate e baunilha.
- Meu sabor preferido é chocolate. Eu queria tanto um sorvete!
- Mas a sua mãe não pode mesmo comprar?
- Não. Ela disse que não dá pra ficar gastando dinheiro com bobagem. Eu queria tanto.
- Quer um pouquinho do meu?
- É sério?!
- Aham, pode ficar com tudo.
- Puxa, obrigada! Nem acredito!
- Você quer brincar comigo? O meu nome é Pedro.
- O meu, chomp, é Mariana.
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