Te escuto
no compasso
cadente e ritmado
de um disco na vitrola
domingo, 20 de novembro de 2011
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
O buraco da tomada parece menor do que quando você estava aqui. Ou foi a coordenação motora que desertou do meu barco junto contigo? Se eu pudesse quantificar a dor, numa escala de zero a dez, seria treze. Localizada? Não, definitivamente. Sinto-a na cabeça, no peito, nos braços, no estômago, nas pernas e no saco. Sinto-a na escova de dentes que tu deixou em cima da pia do banheiro. Na tua falta que te faz mais presente do que nunca. Eu conseguia controlar o dinheiro. Mas você foi embora, com a mala azul e a camiseta do Aerosmith rasgada na manga. E eu apenas ouço, com o copo na mão, there's a hole in my soul. E precisando da minha carteira de cigarros que estava sobre a mesinha do computador.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Irremediável
- Velho, tu tá bebendo demais hoje...
- Tô bebendo de menos, isso sim. Mas hein, sabe quando tu se vê na estrada e à tua frente tem dois caminhos?
- Porra, de novo com essa história de indecisão?!
- Não é isso...
- E o que é, então?
- É que, na real, não importa o caminho que tu escolhe.
- Como não importa?
- Não faz diferença, a gente nunca vai chegar ao fim da estrada.
- Tô bebendo de menos, isso sim. Mas hein, sabe quando tu se vê na estrada e à tua frente tem dois caminhos?
- Porra, de novo com essa história de indecisão?!
- Não é isso...
- E o que é, então?
- É que, na real, não importa o caminho que tu escolhe.
- Como não importa?
- Não faz diferença, a gente nunca vai chegar ao fim da estrada.
sábado, 17 de setembro de 2011
Entrei no quarto e vi o abandono tão cuidado de todo esse tempo que você esteve fora. A capa do Laranja Mecânica aberta no criado-mudo, a cama com os lençóis remexidos há mil anos. Manchas de café, pó e pelos no chão que delatavam a falta que você faz. Não porque você provavelmente chegaria e me olharia com aquele olhar bravo mas brincalhão, me mandando pegar uma vassoura, um rodo, um pano e arrumar toda a bagunça, mas no final limpando tudo você mesma. Não é por isso. É pela sua ausência em mim. Em todo o nosso mundo. O batom na pia do banheiro, ao lado do vidro de perfume - aquele perfume que parecia feito exclusivamente para você. A escova de dentes vermelha, a pinça (que várias vezes você tentou utilizar em mim, sem sucesso), tudo. Tudo, convertido no vácuo de agora. Por vezes eu fico alheio aos movimentos cotidianos, pensando se haveria outro modo. Aí é mais uma cerveja que eu abro, e nessas horas parece que todo o líquido que eu bebo sobre e se dirige aos olhos. Por quê? Tento ouvir qualquer coisa, uma conversa, um som chiado de rádio mal-sintonizado, algo que me faça desviar o foco da sua imagem negativa. Eu sei que o que eu fiz é imperdoável. Inadmissível. Mas eu achava que ia esquecer. Esquecer a noite, a noite cheia de estrelas e uma lua tímida decalcada no negro do céu. Esquecer a sua pele aos poucos adquirindo cor, primeiro violeta, depois um azul claro que até chegava a ser bonito. Mas agora eu posso ver. Que as decisões tomadas foram inúteis. Que eu não esqueci. E que, pelo contrário, você nunca esteve tão presente. No quarto, na casa. Principalmente, no entanto, por mais que eu tente evitar, você está presente em mim.
sábado, 27 de agosto de 2011
Sem tempo para palavras cruzadas
A vida é se há liberdade. Eu sou livre? Creio que não seja corajoso o bastante para admitir que não, embora meus cigarros me condenem rapidamente. Na verdade, os cigarros são o menor dos meus males, o problema é que à primeira vista eles parecem maiores do que realmente são. Mas não estamos aqui para falar de tabaco, e sim de liberdade. Ou podemos continuar com o assunto, ou mudar, enfim, ser livre é ser mutante, metamórfico. É isso, não? Tomo uns goles de um vinho ruim - comprei porque era barato - e deixo que o álcool faça efeito. Porque o álcool é livre, provavelmente mais livre que eu, e ele age livremente sobre mim. O gosto adocicado, mais açúcar que outra coisa, estimula a minha língua, o que me leva a pensar em bocas e beijos e pescoços. Isso é ser livre? Quando ia ao banheiro e ficava lá sentado, com a revista de palavras-cruzadas no colo, a caneta balançando ou sendo mordida, a cabeça procurando a solução para a charada, me pergunto se nesse momento eu era livre. Coquetel (?): arma incendiária utilizada em protestos. Vertical, sete letras. Fogo. Aí eu puxo a descarga e tudo vai embora, no turbilhão de água que segue rodopiando aparentemente sem fim. A água que leva os dejetos embora não é livre. Os dejetos também não, pelo menos agora é o que consigo entender da natureza do dejeto. A barba que cresce - até demais! - é livre até eu vir com a lâmina e tolhê-la para que cresça de novo. E eu me corto e o sangue cai, maculando a brancura da louça da pia. Teria o sangue alguma liberdade? Instrumento de sopro, oito letras, horizontal. Outro daqueles momentos aos quais não sei atribuir a devida taxa de liberdade. E o sopro me traz a música e a música, sim, é livre. A música é tão livre quanto é livre o destino do voo de uma mariposa, se é que o voo da mariposa é livre, mas o que importa é que a metáfora faça sentido. Se não fizer, também, não há diferença, a ideia de liberdade é onipresente (ainda que variável) e independe de quaisquer artifícios. Um gole mais, um trago mais, e o que tem de ser livre vai sendo-o dentro de mim. Irmão do pai, três letras. Sem direção, porque família nem sempre tem direção. Família não é livre de todo. Quiçá não é nada livre. O que é liberdade, realmente, definitivamente? Difícil responder, e mesmo raciocionar sobre a questão. Se estivesse numa revistinha, tendo a resposta sentido e número de letras pré-determinados, seria mais fácil. Mas aí estão um milhão de coisas a serem feitas, coisas complicadas, com prazos rígidos. Não há tempo para resolver palavras-cruzadas.
domingo, 17 de julho de 2011
Laboratório
Um ser humano é o meu amor.
De músculos, de carne e osso,
pele e cor. ♪♫
O cadáver nu na mesa fria tinha a boca meio torta, congelada num eterno sorriso deslocado. Não parecia, agora, mais assustador do que os mortos de velório, sempre enfiados em algodão, ternos e caixões. Um olho fechado, o outro entreaberto – como cuidasse para ninguém injuriá-lo durante o sono. Este detalhe do olho alimentava alguns medos; era, porém, o aviso na porta do laboratório que se incumbia do choque inicial dos novatos na anatomia. Hic locus est ubi mors gaudet sucurrere vitae. As grandes e prateadas palavras latinas sempre causavam uma reação impressionada dos estudantes, reação essa que todo ano fazia o professor Molina esconder uma discreta risada de canto. Eram uns ingênuos, esses alunos, pensava. E o cadáver dissecado continuava deitado a cada turma, espreitando o seu redor com aquele meio globo caramelado à mostra.
Professor Molina, com seu terno azul-marinho de risca-de-giz, impecável sob o jaleco imaculadamente branco, adentrou a sala III do laboratório. Era fevereiro, estava quente. Sacou da caixa o par de luvas e pediu para o assistente trazer as bacias com os corações. Havia vários deles – inteiros e seccionados, vermelhos e acinzentados. E de corações o professor entendia. Era cirurgião cardíaco, cada corte milimétrico do seu bisturi lhe valia muito dinheiro. Alisando o cabelo penteado com extremo cuidado, lançou um ligeiro olhar para o indivíduo inerte e seco na mesa ali ao lado. Os músculos à mostra, marrons. Os alfinetes com marcadores – que estrutura está apontada pela seta 21? Até que, fazendo-o desligar-se do cadáver, os corações chegaram. Nas bandejas, como fossem uma estranha refeição. Calçou as luvas, talheres para o jantar.
– Atenção, esta aqui é a aurícula direita, uma projeção muscular do átrio, que lhe confere maior capacidade.
Molina olhava, impaciente, seu relógio – que, segundo as piadas hiperbólicas correntes em toda a universidade, havia lhe custado tanto quanto seu BMW sedã preto, que atraía inúmeros olhares no estacionamento dos professores. Queria que a aula terminasse logo. A sensação familiar já se manifestara e ele queria resolver isso o mais rápido possível. Sentia os dedos, recobertos pelo látex branco, se contraírem, pressionando a borda da bancada. Conferiu a hora mais uma vez – sua voz discorrendo sobre artérias coronárias; sua mente, pensando na recompensa que viria mais adiante.
– Professor, de onde mesmo parte o ramo circunflexo?
Ele respondeu à questão, ríspido, apressado, e a aula acabou. Tentou ser menos rude ao se despedir dos alunos – a maioria com os jalecos sujos, meu Deus do céu – e chamou novamente o assistente. Pediu-lhe que guardasse os corações e que ninguém o interrompesse na hora seguinte. O assistente fez que sim com a cabeça e saiu, enquanto Molina pegava o telefone – também caríssimo, como tudo o que era seu – e apertava algumas teclas. Mirou outra vez o corpo ali na mesa. A “peça”, como os anatomistas costumavam chamar. E sentiu que o momento tinha chegado.
***
Mariana precisava falar com o professor Molina. Faltara à última aula teórica e não tivera a oportunidade de ver sua nota. Sabia que ele havia acabado de lecionar para o primeiro período e pensou que talvez ele estivesse livre para atendê-la. Passou pela porta do laboratório, já acostumada ao pequeno arrepio que sentia ao ler a frase em latim. Este é o lugar em que a morte se compraz em auxiliar a vida. Ainda assim, gostava de trabalhar com os corpos – e suas partes. Era divertido.
Percorrendo o longo corredor verde, a estudante não via ninguém. Nem João, o técnico que assistia os professores, dava sinal. Resolveu ir à sala III, onde aconteciam as aulas práticas; o professor provavelmente estaria lá. Deu mais uns poucos passos e girou a maçaneta.
– Professor, o senhor está aí? Eu gostaria de...
Súbito, Mariana ficou muda. Não acreditava naquilo que seus olhos e cérebro diziam que estava vendo. Suas tentativas de entender a cena que ali se exibia não foram, absolutamente, satisfatórias. Olhou o jaleco cuidadosamente dobrado na bancada, juntamente com o famigerado terno azul-marinho de risca-de-giz. Sobre ele, o Rolex. Finalmente, viu de novo o cadáver dissecado, na mesa de inox, virado de bruços. E o professor Molina, em cima dele, a roupa de baixo nos tornozelos, com uma cara tão perplexa quanto a sua.
sexta-feira, 8 de julho de 2011
Abriu a porta e deixou que a luz do sol - por incrível que pareça, fazia sol - inundasse seu rosto. Esperava que a luz entrasse pelo nariz, como o ar gelado que soprava vento e balançava as folhas das árvores e deixava a biruta ali perto mostrando a direção do sopro. Debruçou-se na grade da sacada, os cabelos castanho-escuros caindo pelos ombros, voando, refletindo a luminosidade da manhã. Levou a mão à boca e roeu a unha do polegar, enquanto olhava os carros passarem, apressados, lá embaixo - borrões pretos, prateados, vermelhos que avançavam no frenesi de mais um dia. Quanto movimento! Fechou os olhos e se concentrou no som dos pneus e dos motores e dos pássaros, volantes como os fios marrons - belíssimas ondulações. Respirou a luz mais profundamente, seu interior se tornando claro, brilhante. E o calor entrava, e a brisa também, e tudo ia ficando tão novo... Cabelos dançarinos e unhas roídas numa fotossíntese de sentimento. Sinestesia nas alturas. Sexta-feira de manhã.
segunda-feira, 4 de julho de 2011
terça-feira, 21 de junho de 2011
Profissões #1
O mecânico se apaixonou. Derreteu-se a graxa que lhe constituía o coração. Finalmente encontrara a rebimboca que casava com a sua parafuseta.
Assinar:
Postagens (Atom)
