quinta-feira, 4 de julho de 2013

Quadrilha


João amava Raimundo
que amava Teresa
que amava Joaquim
que amava Maria
que amava Lili
que não amava ninguém

João foi para a Tailândia nascer Roberta
Raimundo morreu de alegria
porque Teresa largou o convento
Joaquim cortou os punhos
quando Maria ficou com a tia
da Lili, que não se casou
porque gostava de compartilhar seus dotes
com os mais necessitados

sábado, 29 de junho de 2013

Pietà

costurando gente
o trabalho segue madrugada adentro
na assepsia branca
de um pronto-socorro inundado

vemos tanta coisa nessas noites
ouvimos tantas coisas mais
sobre violência e sobre incapacidade
sobre tiros disparados sem pensar
e sobre tiros bem pensados
sobre ferimentos por armas brancas
sobre covardia
e sobra incoerência

e, em meio à babel de queixas
no corredor repleto de dignidades feridas
de sentimentos violados
além da violação física
uma mãe segura em seus braços
o corpo do filho ensanguentado

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Tobogã

"When I get to the bottom, I go back
to the top of the slide, where I stop
and I turn and I go for a ride
'till I get to the bottom and I see you again"

A chuva bombardeia a janela. Munido da caneca de café forte, ligo a vitrola e espero você chegar. Súbita, molhada, você abre a porta e me lança um sorriso cúmplice e carregado de intenções. Joga a bolsa num canto e me convida sem proferir palavra, enquanto tira o casaco, inundando-me com o âmbar dos seus olhos. Num canto da sala, o vinil gira sob a agulha e eu rodo em pensamentos delirantes, aceitando prontamente o convite. Cai o café no assoalho, tímido. E te recebo nos meus braços, ávido por mergulhar nas águas infindas escondidas debaixo dos jeans.

***

Voltamos ao Éden e nos descobrimos desprotegidos. Perdemo-nos entre firmamentos e dentes e línguas - o duelo das línguas num único vão, com céus a brilhar por sobre elas. Dedos, mãos que percorrem trajetos sinuosos e arrepiam, eriçando pelos, provocando suspiros e ais. Hastear bandeira e prestar continência, sentindo o seu hálito cálido nos ouvidos. E descer pelo tobogã. Meus lábios e eu deslizamos nas curvas do escorregador, frenéticos e deslumbrados pela ímpar magnitude. Atravesso vales, campos; escalo montanhas. Procuro-te na maravilhosa confusão de descer, simultaneamente célere e lento, pelas voltas repletas de adrenalina. Tuas mãos a acariciar-me os cabelos e indicando-me a rota, teus músculos que tremem a cada centímetro avançado, até que finalmente eu chego à imensidão hídrica do teu corpo. Sacio-me, arfante também, nadando e sorvendo; afogando-me. E, depois de chegar ao fim, retorno ao topo e um beijo longo me deixa pronto para escorregar novamente e te ver por inteiro mais uma vez.

***

Quero saber a resposta, o que é guardado no âmago, bem dentro de você. O que sei é que você quer que eu a faça. E, à medida que eu me meto a teu construtor, moldo igualmente a mim mesmo. E as formas se encaixam, sou eu adentrando teus recessos escuros, que se iluminam e me recebem. É dança singular na parceria; nenhum de nós sabe dançar, mas fazemos balé perfeito, cadência com ritmo que pedem apenas para continuar eternamente. Eu cria realmente que estava acima de você, muitas milhas acima. Mas olho para o âmbar e percebo que estou embaixo. Visão sublime, que poderia nunca mais acabar. E todos os prelúdios se anastomosam numa única nota, um acorde furioso de guitarra, quando eu te seguro e você me segura. E ambos experimentamos a transcendência, numa babel sinestésica de sons, cheiros e sabores. Das alturas, eu volto deslizando e você me retribui o passeio pelo tobogã. Minhas últimas gotas caem no seu mar e nos unem pelos séculos amém. As línguas, enfim, digladiam uma última vez. E caímos, exaustos e enrodilhados, serpentes, com a vitrola gemendo o riff metálico, cujo som ecoa por todo o apartamento.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Ônibus

com destino a algum lugar, sacoleja
a velha lata amarela, continente de tantas cabeças
jovens e fones, velhos e bengalas
mães e seus filhos chorando com pulmões de remador
[enquanto ela tenta segurar também as sacolas
haja braço!

o adesivo afixado nas janelas avisa:
"cuidado com furtos no interior do veículo"
que importa a matéria roubada
se os semblantes exibem infindáveis boletins de ocorrência?

– próxima parada!

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Duas Vezes Solidão

Tem certas noites que eu não durmo
Com alguma inconsciência reprimida
Que surge no ritmo da batida
De um blues que ouvi no mês passado

E, por só conseguir ficar acordado
Levanto da cama e saio pra rua
No desejo de que fosse tua
A saliva com a qual cuspo fraqueza

Cortes, pancadas, dor siamesa
A dor que sinto eu por você
Estamos à nossa própria mercê
E o bel prazer do tempo nos corrói

Quando eu queria ser mais um herói
Torto, canhestro e desconhecido
Investi num amor falido
E os superpoderes não valeram nada

Firo-me andando na madrugada
De novo teus lábios me dizem não
E eu vivo duas vezes solidão
Tua voz me surge sempre como insônia

Tentar dormir, tentar tirar
Tirar de vez do peito o som
O som que faz o meu lembrar
Do que podia até ser bom
Fingir, mas não acreditar
Que eu estou feliz assim
Para quem sabe então ficar
Menos de você em mim
Eu fantasio o seu sim
Não tem começo, mas tem fim.

domingo, 17 de março de 2013

Sobre meteorologia e pérolas

Sempre que bate aquele vento mais gelado, fruto de uma frente fria vinda do sul, eu me lembro de você. De como você me dizia para nunca parar de escrever, sua vontade de que fosse inverno todo dia para que eu sempre continuasse e depois você viesse me esquentar com uma xícara de café recém-coado e um vermelho e o seu corpo. Ainda estamos em março, o outono nem chegou, e a mínima queda no termômetro já me dá aquele negócio no peito e nas mãos, um desejo de escrever que vem talvez pela força do hábito que você me causou.

Leio as nossas conversas antigas, buscando qualquer coisa que sirva de matéria para isto que escrevo agora. Para que fique pessoal, sabe? Encontrei as letras daquelas músicas que você escreveu há uns tempos, rindo com cada verso infame de duplo sentido, com o seu humor ácido, com a sua entrega em cada palavra. E eu pedindo para você musicar meus poemas tortos, as bobas figuras de linguagem com toda a certeza piores que as suas, ainda que você não o admitisse.

Mas aí você foi pra Espanha.

Numa noite de julho, você me ligou e disse "tô indo pra Espanha". Eu fiquei mudo e antes que conseguisse falar qualquer coisa você desligou o telefone. Você se desligou de mim. E eu, como único mecanismo de defesa, adivinhe o que eu fiz? Escrevi. E continuei escrevendo até hoje. Tudo o que escrevo é você. Cenários e personagens, diálogos e poemas. Eles são você.

Já tentei te afogar no álcool e te asfixiar com fumaça. Já tentei. Mas toda vez que a temperatura baixa e o vento sopra te vejo voltar à vida. À minha vida. Nessas horas, eu amarro um cachecol em volta do pescoço, me enfio naquele casaco de couro já descascando e vou em direção à brisa. Pensando que talvez Rubem Alves tenha razão. Ostra feliz não faz pérola.

E, nesses tempo, só o que fiz foi confeccionar um colar pra você.

quinta-feira, 7 de março de 2013

22/12/11

Ver as veias elétricas que se desenham nas nuvens num dia como hoje. Tudo se ilumina e apaga, num colorido enérgico que pinta céus e olhos. Como luzes de natal, piscando diamantes. Há alguma coisa no meu peito. Talvez seja essa época, teimosa na tentativa de aquecer até o que há de mais gelado. Ou finalmente a compreensão que chegou, arrombando a porta. Ou ainda a balada antiga que toca no rádio de vez em quando e me presenteia com saudade. Let's spend the night together; baby, don't go. Ou tudo junto.

***

Confundo a chuva com inúmeras lágrimas, com orgasmos múltiplos, com gotas de sangue que caem de um coração mais natural que a natureza. Mais natural que o medo da morte. Toda essa indefinição, isso de sentir o que não se sabe, de ficar admirando conceitos que não se encaixam... Isso de acreditar que as coisas são palpáveis, que os relâmpagos são flashes e que tudo é infinito. Infinito. Isso de ser humano.

terça-feira, 5 de março de 2013

Temporal

o escuro aberto
sob as nuvens, tanta luz
chuva de verão

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013


Falo de mim mesmo em terceira pessoa na tentativa de fingir que não são meus os problemas. Que não sou eu esse alguém bagunçado. Que não são minhas essas preocupações. Invento um alter ego comum, para lhe transferir todo o peso sobre as minhas costas e me sentir leve, ainda que apenas pelos míseros minutos nos quais escrevo. Toda a incerteza que me dá repetidamente, assim que o despertador toca, me puxando com um doloroso fórceps do quente e macio útero onírico. No qual eu queria permanecer pela eternidade, amém. Hoje eu vi um mendigo na rua, comendo restos de qualquer coisa. Vi um empresário bem-sucedido sair da garagem no seu sedã prata polido à perfeição. Vi um paciente neurológico que não abria os olhos e cuja voz era um sussurro. Vi a mim mesmo neles todos, e em tudo o que vi hoje. Me vi revirando o lixo. Me vi acelerando, inconsequente. Me vi confinado a uma maca de hospital. Me olho todos os dias, mas nunca tinha me visto.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Leis

Dispo-me de ideias pré-concebidas quando te vejo. Desnudo a mim mesmo, e me mostro, puro. Ingênuo. Voluntariamente sob teu comando. Seguindo as regras ditadas pelos teus cabelos pretos e compridos. Obedecendo as ordens dos teus olhos intensos e satisfazendo as vontades da tua boca pequena. Fraco, diante de ti. Qualquer sopro de mando, de poder, de falsa superioridade desaparece a um simples movimento da tua mão. Apenas sou teu. E, sendo-o, eu te faço fazer-te minha. Porque não sou eu que adquiro posse. Tu te fazes minha por vontade própria. Um acordo que não necessita palavras.  Um contrato tácito, que funciona desde sempre. O qual não penso em rescindir.