quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Causa e Efeito

Levantou-se. Rolar na cama por horas não resolveria o problema. Esfregando preguiçoso os olhos remelentos, foi descalço até o outro lado do quarto, sentindo o frio do azulejo ocre subir pelas suas pernas e provocar-lhe um arrepio. Procurou o interruptor no escuro, tateando, até que o botão se fez aparecer sob os dedos tortos. Acendeu a lâmpada incandescente, que espalhava um brilho alaranjado e difuso pelo aposento, e abriu a tampa da vitrola. Lá estava. Repousando plácido sobre a bandeja, aguardando o movimento do braço e o toque sibilante da agulha, o bem maior que possuía. The Beatles – White Album, Disco 1. Desejado durante meses e adquirido como prêmio após uma economia quase impossível, o disco emanava alguma coisa que seu dono não podia explicar. A começar pela capa, diferente de qualquer outra que já tinha visto. Completamente branca. Crua. Apenas o nome da banda em relevo, para constar. Depois, é claro, vinham as músicas, mostras ímpares de genialidade gotejadas em minutos rítmicos e pungentes. Bocejando e coçando o saco, pôs o vinil para tocar.

Sempre preparava uma garrafa térmica antes de dormir, para os casos em que este dormir não fosse possível. Deixava-a sobre a escrivaninha, ao lado do maço de cigarros e do isqueiro. Música, café e fumo. Era a combinação perfeita para as noites de insônia, aquelas noites em que o tempo parecia derreter e passar cada vez mais lento, provando que tudo é relativo. Serviu-se de uma xícara e acendeu um dos vermelhos. Queria deixar-se levar pela melodia, flutuar leve e sair dali, para algum lugar em que não se sentisse o verme que parecia ser. A falta de sono colaborava; nessas horas a mente ficava mais fervilhante que nunca, e trazia à superfície perguntas que ele não queria responder. Na verdade, mais que meras indagações; eram verdades, constatações, provas tristes de que sua vida não valia merda nenhuma. Pegar as asas quebradas e voar, voar para longe, como o pássaro que debuta na planagem, era o desejo. Mas sentia-se absolutamente incapaz de sair do seu ninho repleto de vazio. Novamente um verme.

A imagem dos amigos – se é que podia chamá-los assim – passou célere ante os seus olhos. Como é que eles podiam ser tão felizes? Aliás, o que é mesmo felicidade? E como, meu Deus, como conseguiam todas aquelas mulheres? Ele não compreendia. Ele, que sonhava encontrar sua Molly no supermercado abstrato da existência. Sua única Molly. Via que não iria suportar, era tudo sufocante demais. Terrível demais. Doloroso demais. Não queria ser assim, definitivamente. Parar de pensar nessas coisas, ser alguém normal, pra acabar com essa melancolia tão incômoda. Dormir, precisava dormir. Mas agora, também, que se fodesse o sono, encheu de novo a xícara e descobriu o fogo mais uma vez.

Lembrou de outra música do quarteto, uma que não estava inclusa na sua preciosidade. Uma música que falava sobre certo “homem de lugar nenhum”. Era exatamente essa a visão que tinha de si. Deslocado, pertencente a nada, o clichê do zero à esquerda. Será que sentiriam sua falta, uma única pessoa que fosse? Tinha certeza de que não. Mas tinha também um motivo para permanecer. O disco comprado com um esforço do cão era a única coisa que o fazia afastar a ideia de findar com o sofrimento. Algo de bom no meio de tanta podridão. A música. O símbolo. Os trezentos reais mais bem-gastos de sua vida. Espere, eu disse “vida”?

Coçou novamente o saco e mandou pra dentro mais café, mandando qualquer possibilidade de sono para o diabo que a carregasse. Pensou em como tinha planejado o tempo insone; ouviria um pouco de música e logo as pálpebras pediriam para se fechar. Planejamento esse que ele sabia que não funcionaria; a garrafa térmica estaria lá, toda prosa. A verdade é que era cônscio de que não dormiria, mas planejava mesmo assim, talvez para fingir que tivesse controle sobre alguma coisa. Mas não tinha. E agora não dava mais. Acabou com o líquido quente e pseudoacolhedor. Fumou mais um cigarro. Arrancou, com raiva, o disco da vitrola, e sentiu verdadeiramente o arranhão que a agulha imprimiu na superfície negra. Olhou-o bem, era dor real. O item mais precioso... O único. Quebrou o disco em quatro partes. Agora nada o impedia. Sem motivos para viver, estava livre. Pegou a faca que mantinha escondida no guarda-roupa e deslizou o fio com cuidado na articulação do punho. Não lhe doeu mais que a fratura da sua relíquia. Por alguns intermináveis minutos, viu o sangue escuro macular a imensidão alva da capa do White Album. Depois, não viu mais nada.

6 comentários:

  1. Você escreve intensamente bem.Parabéns!

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  2. Intenso, arrepiante. Sem mais palavras.

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  3. Procurar a razão, eis a razão intensa do nosso viver. E, como não haveria deixar de ser, esta Molly, tal qual a de Joyce, provoca o transbordamento, a desrazão, o extravasamento, nem que seja na morte. Sua escrita equivale a do mestre. Muito bom mesmo. Parabéns!! Profa. Sandra

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  4. um lixo! white album salvou o texto.

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  5. Muito, muito obrigado pelos comentários, pessoal! Fico tão feliz que tenham gostado...!

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