quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Momento

             H  O  R  A
    S  E  N  H  O  R  A
    M  E  L  H  O  R  A
          C  H  O  R  A
          A  G  O  R  A
          Á  G  O  R  A
             G  O  R  A  R
                O  R  A  R
                   R  A  R  O
                C  L  A  R  O
                   L  A  R
                   B  A  R
                      A  R
                      A  R
                      A  R

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Vazio

É isso, simples assim. Voltando às origens, ao ponto em que tudo começou. Inexplicável, repentino, arrebatador. Vazio. Luta eterna entre opostos, entre estados momentâneos de espírito. Polos. Vermelhidão. Música. Sempre pensamos que nunca é duradouro, principalmente quando é conosco. Contigo, convosco, comigo. Inimigo. Um peso nos olhos que há tempos não aparecia – e que não era para estar aqui, agora. O que deu errado? Aliás, alguma coisa deu certo? Retornar. Vontade de areia firme, onde as ondas – e que ondas! – não podem alcançar. É contraditório. Se teremos de correr, de atingir qualquer coisa predeterminada, como fazer? Eu não sei. Mais que apenas dizer, é preciso saber como proceder. Mas eu não sei, desculpe, a quem quer que seja. Dificuldade. Essa coisa de camadas, múltiplas camadas... Dor-de-cabeça. Olhar a lua gigante decalcada no grande lençol negro, pedindo-lhe uma solução, que no fim das contas não soluciona nada. Nada resolve. Vazio.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Anual

Happy birthday to you...

Tanta coisa já me propus a escrever, antecipadamente... E tantas vezes as palavras me faltaram, como numa espécie de sortilégio em que elas criam vontade própria e decidem não aparecer. Penso há muito sobre o que eu diria hoje, dezessete de janeiro de dois mil e doze. Um dia normal, ou não. Minha cabeça viaja à procura de algo que não seja repetitivo, mas aniversários sempre o são, em todos os sentidos.

***

Não, nada de diferente ocorreu quando o relógio mostrou meia-noite, com seus números fosforescentes piscando vermelhos lá dentro dos meus olhos. Tudo era igual, mas nunca tinha estado tão estranho. É claro que eu tinha a consciência de que quando a segunda desse lugar à terça, meu corpo, meus gostos e tudo o mais permaneceriam os mesmos - afinal, ninguém está verde num dia e no outro se apresenta pronto para colher. Mas o significado simbólico do avanço no calendário faz com que a gente pense que, sim, as coisas mudaram.

***

Um, dois, três, dezoito. Estou feliz. Porém, mais do que felicidade, o que está à minha frente é um gigantesco ponto de interrogação, que se insinua do alto de sua gravidade, olhando-me nos olhos e perguntando e agora?. E agora? Será que, a partir de hoje, serei uma pessoa diferente por ser legalmente responsável pelos meus atos? Se metamorfoses acontecem na vida, não acontecem tão de repente. Veja só, não sou muito distante do que eu era há dez verões (não gosto muito de primaveras). Quem sabe a gente não "mude" de fato, mas sim "troque de roupa" no decorrer dos tempos. E todos sabemos como é ruim trajar o mesmo todos os dias. Enfim. Talvez a vida seja exatamente isso: um grande guarda-roupas. Hoje visto mais uma. Feliz aniversário.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

A Pedra

a pedra estava
no meio do caminho uma pedra
caminho do qual a gente desviava
por causa da pedra
obstáculo
mas a menina foi lá
e limpou a poeira da pedra
e viu que não era pedra
era um diamante

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Pulgas e Percevejos

Tudo nesta casa está tomado. Eu estou. E não adianta jogar inseticida pelos cantos, pelas paredes, pela memória. A luz alaranjada da lâmpada incandescente me entra nos olhos rascante, clareando os recessos mais escondidos - que, desde Freud, tento esconder até a eternidade. Há vários deles, bichos que vêm se arrastando, ou voando céleres, e corroem móveis e almas. Deixando rastros de lembranças, páginas velhas que alimentaram traças. Não se pode lê-las, nunca mais.

Festa perdida e intrépida, infame, repleta do açúcar que atrai infinitas formigas, fá-las tremularem as antenas, reunindo a multidão de Meca ao fim de mais um Ramadã. E eu, no jejum de sentimento, a refestelar-me glicídico, ainda que salte à vista, clara e tátil, a certeza do erro. Haveria modo de digerir esse doce, ou mesmo me digerir, para por fim nas ferroadas? É impossível dormir, com todo o corpo a explodir em feridas que se exibem destituídas de qualquer vestígio de pudor. Putas feridas.

Combinação perigosa. Pulga e percevejo, barata e gafanhoto, besouro e escaravelho. Um sarau estrondoso a ecoar onde quer que eu esteja, misto de serenata e militância - protesto trovador consumindo o que me resta de lucidez. Caço-os, procuro-os, imerso no amarelo luminoso, feito de raios e consciência; pífia tentativa. Faço-me rocambole na cama, suicídio lento e derretido que se junta às picadas e mordidas dos insetos da mente.

domingo, 20 de novembro de 2011

Samba Canção

Te escuto
no compasso
cadente e ritmado
de um disco na vitrola

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O buraco da tomada parece menor do que quando você estava aqui. Ou foi a coordenação motora que desertou do meu barco junto contigo? Se eu pudesse quantificar a dor, numa escala de zero a dez, seria treze. Localizada? Não, definitivamente. Sinto-a na cabeça, no peito, nos braços, no estômago, nas pernas e no saco. Sinto-a na escova de dentes que tu deixou em cima da pia do banheiro. Na tua falta que te faz mais presente do que nunca. Eu conseguia controlar o dinheiro. Mas você foi embora, com a mala azul e a camiseta do Aerosmith rasgada na manga. E eu apenas ouço, com o copo na mão, there's a hole in my soul. E precisando da minha carteira de cigarros que estava sobre a mesinha do computador.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Irremediável

- Velho, tu tá bebendo demais hoje...
- Tô bebendo de menos, isso sim. Mas hein, sabe quando tu se vê na estrada e à tua frente tem dois caminhos?
- Porra, de novo com essa história de indecisão?!
- Não é isso...
- E o que é, então?
- É que, na real, não importa o caminho que tu escolhe.
- Como não importa?
- Não faz diferença, a gente nunca vai chegar ao fim da estrada.

sábado, 17 de setembro de 2011

Entrei no quarto e vi o abandono tão cuidado de todo esse tempo que você esteve fora. A capa do Laranja Mecânica aberta no criado-mudo, a cama com os lençóis remexidos há mil anos. Manchas de café, pó e pelos no chão que delatavam a falta que você faz. Não porque você provavelmente chegaria e me olharia com aquele olhar bravo mas brincalhão, me mandando pegar uma vassoura, um rodo, um pano e arrumar toda a bagunça, mas no final limpando tudo você mesma. Não é por isso. É pela sua ausência em mim. Em todo o nosso mundo. O batom na pia do banheiro, ao lado do vidro de perfume - aquele perfume que parecia feito exclusivamente para você. A escova de dentes vermelha, a pinça (que várias vezes você tentou utilizar em mim, sem sucesso), tudo. Tudo, convertido no vácuo de agora. Por vezes eu fico alheio aos movimentos cotidianos, pensando se haveria outro modo. Aí é mais uma cerveja que eu abro, e nessas horas parece que todo o líquido que eu bebo sobre e se dirige aos olhos. Por quê? Tento ouvir qualquer coisa, uma conversa, um som chiado de rádio mal-sintonizado, algo que me faça desviar o foco da sua imagem negativa. Eu sei que o que eu fiz é imperdoável. Inadmissível. Mas eu achava que ia esquecer. Esquecer a noite, a noite cheia de estrelas e uma lua tímida decalcada no negro do céu. Esquecer a sua pele aos poucos adquirindo cor, primeiro violeta, depois um azul claro que até chegava a ser bonito. Mas agora eu posso ver. Que as decisões tomadas foram inúteis. Que eu não esqueci. E que, pelo contrário, você nunca esteve tão presente. No quarto, na casa. Principalmente, no entanto, por mais que eu tente evitar, você está presente em mim.
Verônica era verborrágica
prolixidade com gosto de sobremesa
profusão de mentes, completamente
absolutamente
mas o melhor de Verônica
era quando ela não dizia palavras
(as tantas palavras que dizia)
apenas fonemas exasperados e sem sentido