sexta-feira, 25 de outubro de 2013

a bagunça
do meu quarto
reflete
a bagunça que tenho
dentro de mim.

domingo, 20 de outubro de 2013

Pela primeira vez eu gostei mais de dias de sol que dos encobertos. Pela primeira vez minha autoestima, que vivia enterrada, conseguiu emergir à superfície e me fazer achar que, sim, eu poderia ter o que os outros têm. Pela primeira vez abri mente e peito; abri a mim mesmo numa mistura de descoberta, de felicidade, de alívio. Mas como eu já devia desconfiar, tudo foi muito efêmero. Por causa de algumas poucas palavras, pensamentos que eu tinha conseguido afastar voltam como estouro de boiada e novamente a autoestima vai para o chão. Aí eu penso na falta que as nuvens fazem e como eu pude imaginar que me daria bem com calor e a claridade. Sempre fui amigo do cinza. Era-me confortável. E, agora, desejo mexer no ciclo das estações e reverter a meteorologia. Mas não. Como uma piada sádica do universo, tudo isto ocorre no primeiro dia do horário de verão. Para que o sol venha e me torture por uma hora mais.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Clique

repostagem

Luz acesa
Transfigurando-nos, corpos salgados
num verso alexandrino
Transcendência etérea
Nevoeiro
Memória turva
Torpor orgânico
e químico
Fotografadas suas feições
no álbum nonsense
descontrolado
da minha cabeça

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Gramática

Queria fazer um poema concreto
com todas as três dimensões
que te saltasse aos olhos
e se enterrasse bem lá no fundo da sua retina
Mas ele saiu amorfo
Massa volúvel que de sólido não tem nada
Porque aprendi na quinta série
que amor é substantivo abstrato

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Enxerto

repostagem

Foi num dia de muita chuva que a vi passar pela primeira e última vez. O céu todo vestido de cinza, chorando lágrimas doces que caíam oblíquas ao bel prazer do vento. Suas mãos trêmulas tentando proteger o cigarro aceso, já pela metade, pendente dos lábios roxos, tulipa num jardim de Amsterdã. A marquise sob a qual eu ponderava entre esperar o temporal passar ou ir de qualquer jeito não era muito grande. Vi o cachecol balançando e o rastro de fumaça branca e densa que saía da casinha de joão-de-barro que ela improvisou. Constrangido sorriso mútuo, um ou outro comentário sobre o aguaceiro, essas trivialidades. E o silêncio que, mesmo no espaço apertado da área seca debaixo da marquise, deu um jeito de se enfiar entre nós como se fosse uma coisa física, tocável, visível.

***

Até que fui atingido pela névoa da cachoeira de cachos castanhos, cujo perfume me trouxe novamente a imagem da tulipa e do seu balé à brisa holandesa. Nunca estive na Holanda. Susto, ela percebeu. Virou-se de frente pra mim e pediu desculpas. Tudo bem, não há problema. E realmente não havia. Minha cabeça, cheia de coisas inúteis e preocupações bestas, desanuviou – o que demorava a acontecer com a grande tela cor de chumbo, cortada por prata vez ou outra. Não nomes, não ocupação, apenas comentários adicionais sobre o tempo feio. E uma surpresa.

***

Li infinitas feições naquele curto espaço de tempo. Súbito, a grande bola amarela apareceu, estancaram-se as gostas e desmoronou-se, por conseguinte, a casinha de joão-de-barro. Senti o roçar das franjas de lã no pescoço e previ seus passos graves rumo a um destino o qual eu não fazia ideia. Não faço ideia. Não a escutei quando disse uma fórmula de despedida qualquer – pergunto-me se chegou a fazê-lo. Lembro-me apenas de assistir à cena de fora, eu mesmo espectador e personagem simultaneamente. O encontro das pétalas macias, ela,  e das folhas secas, eu. Duas bocas; o corpo sentindo a haste da planta, uma da outra. Depois, a meia-volta. A ponta do cachecol rodopiando novamente. Minhas mãos erguendo a gola da jaqueta para depois se enterrarem nos bolsos. Meus pés respingando a água de inúmeras poças que encontrei pelo caminho. E o cheiro de tulipas que encanta e assombra meu pensamento até hoje.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Quadrilha


João amava Raimundo
que amava Teresa
que amava Joaquim
que amava Maria
que amava Lili
que não amava ninguém

João foi para a Tailândia nascer Roberta
Raimundo morreu de alegria
porque Teresa largou o convento
Joaquim cortou os punhos
quando Maria ficou com a tia
da Lili, que não se casou
porque gostava de compartilhar seus dotes
com os mais necessitados

sábado, 29 de junho de 2013

Pietà

costurando gente
o trabalho segue madrugada adentro
na assepsia branca
de um pronto-socorro inundado

vemos tanta coisa nessas noites
ouvimos tantas coisas mais
sobre violência e sobre incapacidade
sobre tiros disparados sem pensar
e sobre tiros bem pensados
sobre ferimentos por armas brancas
sobre covardia
e sobra incoerência

e, em meio à babel de queixas
no corredor repleto de dignidades feridas
de sentimentos violados
além da violação física
uma mãe segura em seus braços
o corpo do filho ensanguentado

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Tobogã

"When I get to the bottom, I go back
to the top of the slide, where I stop
and I turn and I go for a ride
'till I get to the bottom and I see you again"

A chuva bombardeia a janela. Munido da caneca de café forte, ligo a vitrola e espero você chegar. Súbita, molhada, você abre a porta e me lança um sorriso cúmplice e carregado de intenções. Joga a bolsa num canto e me convida sem proferir palavra, enquanto tira o casaco, inundando-me com o âmbar dos seus olhos. Num canto da sala, o vinil gira sob a agulha e eu rodo em pensamentos delirantes, aceitando prontamente o convite. Cai o café no assoalho, tímido. E te recebo nos meus braços, ávido por mergulhar nas águas infindas escondidas debaixo dos jeans.

***

Voltamos ao Éden e nos descobrimos desprotegidos. Perdemo-nos entre firmamentos e dentes e línguas - o duelo das línguas num único vão, com céus a brilhar por sobre elas. Dedos, mãos que percorrem trajetos sinuosos e arrepiam, eriçando pelos, provocando suspiros e ais. Hastear bandeira e prestar continência, sentindo o seu hálito cálido nos ouvidos. E descer pelo tobogã. Meus lábios e eu deslizamos nas curvas do escorregador, frenéticos e deslumbrados pela ímpar magnitude. Atravesso vales, campos; escalo montanhas. Procuro-te na maravilhosa confusão de descer, simultaneamente célere e lento, pelas voltas repletas de adrenalina. Tuas mãos a acariciar-me os cabelos e indicando-me a rota, teus músculos que tremem a cada centímetro avançado, até que finalmente eu chego à imensidão hídrica do teu corpo. Sacio-me, arfante também, nadando e sorvendo; afogando-me. E, depois de chegar ao fim, retorno ao topo e um beijo longo me deixa pronto para escorregar novamente e te ver por inteiro mais uma vez.

***

Quero saber a resposta, o que é guardado no âmago, bem dentro de você. O que sei é que você quer que eu a faça. E, à medida que eu me meto a teu construtor, moldo igualmente a mim mesmo. E as formas se encaixam, sou eu adentrando teus recessos escuros, que se iluminam e me recebem. É dança singular na parceria; nenhum de nós sabe dançar, mas fazemos balé perfeito, cadência com ritmo que pedem apenas para continuar eternamente. Eu cria realmente que estava acima de você, muitas milhas acima. Mas olho para o âmbar e percebo que estou embaixo. Visão sublime, que poderia nunca mais acabar. E todos os prelúdios se anastomosam numa única nota, um acorde furioso de guitarra, quando eu te seguro e você me segura. E ambos experimentamos a transcendência, numa babel sinestésica de sons, cheiros e sabores. Das alturas, eu volto deslizando e você me retribui o passeio pelo tobogã. Minhas últimas gotas caem no seu mar e nos unem pelos séculos amém. As línguas, enfim, digladiam uma última vez. E caímos, exaustos e enrodilhados, serpentes, com a vitrola gemendo o riff metálico, cujo som ecoa por todo o apartamento.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Ônibus

com destino a algum lugar, sacoleja
a velha lata amarela, continente de tantas cabeças
jovens e fones, velhos e bengalas
mães e seus filhos chorando com pulmões de remador
[enquanto ela tenta segurar também as sacolas
haja braço!

o adesivo afixado nas janelas avisa:
"cuidado com furtos no interior do veículo"
que importa a matéria roubada
se os semblantes exibem infindáveis boletins de ocorrência?

– próxima parada!

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Duas Vezes Solidão

Tem certas noites que eu não durmo
Com alguma inconsciência reprimida
Que surge no ritmo da batida
De um blues que ouvi no mês passado

E, por só conseguir ficar acordado
Levanto da cama e saio pra rua
No desejo de que fosse tua
A saliva com a qual cuspo fraqueza

Cortes, pancadas, dor siamesa
A dor que sinto eu por você
Estamos à nossa própria mercê
E o bel prazer do tempo nos corrói

Quando eu queria ser mais um herói
Torto, canhestro e desconhecido
Investi num amor falido
E os superpoderes não valeram nada

Firo-me andando na madrugada
De novo teus lábios me dizem não
E eu vivo duas vezes solidão
Tua voz me surge sempre como insônia

Tentar dormir, tentar tirar
Tirar de vez do peito o som
O som que faz o meu lembrar
Do que podia até ser bom
Fingir, mas não acreditar
Que eu estou feliz assim
Para quem sabe então ficar
Menos de você em mim
Eu fantasio o seu sim
Não tem começo, mas tem fim.