sábado, 27 de outubro de 2012

Si yo a ti mintiera

aunque yo estuviera en otras tierras
viéndote encerrada en tu hogar
y tu voz no lograra romper el océano
telepáticamente estarías conmigo

no me placería mentir
reconocerías la falta de verdad al primer contacto
me cairía de rodillas
ye te vería marchar con una lágrima negra
en la esquina de tu ojo izquierdo

después, en un futuro que se nos mostraría muy pronto
pocas vueltas en el reloj
atrapándole todos los recuerdos
lo único que restaría
sería la memoria de dos espectros que anduvieron a solas

buscando besos
ofrecendo abrazos
y la mentira que te hubiera contado
a torturarme por los siglos que no tienen fín

domingo, 21 de outubro de 2012

Cadência

Quero compor um samba pra você. Um samba carioca, paulista, paranaense. Misturar sons numa rapsódia bem brasileira, porque o céu de casa sempre tem mais estrelas. Um partido-alto seguido do ritmo forte do samba corrido pra depois tudo ficar calmo outra vez, virando um choro de roda lento, e o muito, muito que te quero. E depois dormir, só ouvindo a tua respiração compassada e o som da flauta diminuindo, diminuindo…

domingo, 7 de outubro de 2012

Guria

Noite quente na cidade. O ônibus amarelo com destino ao bairro do Uberaba sacolejava, roncando. E eu com os fones de ouvido metido nas orelhas, escutando Jet, are you gonna be my girl. Até que se sentou ao meu lado. Cabelos, óculos, mochila, unhas e o “Daddy’s girl” tatuado no braço – todos pretos, como o céu mormacento que fazia lá fora. Tinha cara de Letícia. A blusa multicolorida que ela mesma enfeitou, com uma estampa psicodélica e um decote recortado em casa, que deixava entrever as alças do sutiã, também preto. Abriu uma edição meio velha d’A Convidada, de Simone de Beauvoir, cujas páginas eram marcadas com uma fotografia desbotada de quando ela era criança. Senti o cheiro bom e desconhecido que emanava dela e das palavras, e foi aí que reparei que ela fazia letras na federal (finalmente a greve terminara) e tinha uma aliança prateada no dedo anular da mão direita. – Você pode abrir a janela mais um pouco, por favor? Claro que eu podia. Tristemente, eu podia. Abri a janela, no que ela deu uma folheada no livro. Na primeira página, “Renata, 2005”. Ela não era Letícia. E eu desci no ponto seguinte, pedindo licença para passar e vislumbrando a fênix desenhada em suas costas. Is she gonna be my girl? Não.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Fonemas #1

venho ver-te
ver-te vindo
vertedouro

sábado, 12 de maio de 2012

07/05/12

Dilacerar. Uma discussão no andar de baixo como pano de fundo, queria dilacerar. Partir a palavra ao meio, chegar ao âmago do âmago de algum significado. Sentir falta de coisas desimportantes, inexistentes, barulho de mar em concha perolada. Ninguém lá fora, apenas os cones iluminados dos postes solitários. Dentro de casa, contraste, a falta de luz, o escuro desejado, deliberado. O escuro feito escuro por vontade. Uma ânsia de vomitar tristeza e decepção que lhe subia à boca mas era constantemente empurrada de volta. Álcool. Amor. Todas essas coisas que são na verdade incompreensíveis e a gente não pode ter mais que uma mera ideia do que elas representam. Pão e vinho, corpo e sangue. Suor. Música nos ouvidos, nostálgica, colorindo lembranças e trazendo à tona a pluralidade de tudo. Loucura e lucidez, qual é o limite? Existe um? O fruto proibido não é a maçã, é a consciência. Mentiras. Estações do ano, que se alternam num festival de frio e calor e folhas caindo e flores nascendo. Tudo é mágica e nada é de verdade. O que agoniza ainda é vivo, não morre se se lhe resta um mínimo de força. Agonizante, porém ainda não morto, queria dilacerar. A si mesmo. O mundo. Dilacerar o que lhe havia de nobre.


Há dois anos, eu resolvi criar este espaço.
Cresci muito com ele - e com vocês.
Infelizmente, porém, estou dispondo de bem menos tempo
do que eu tinha para compartilhar minhas palavras tortas.
Mas ainda estamos vivos!
Porque, como está ali em cima, "o que agoniza ainda é vivo".
E ainda resta a força. A vontade.
Então, mesmo com frequência diminuída,
com textos muito mais ocasionais,
estarei aqui ainda.
E, hoje, só me resta uma coisa a fazer:
agradecer.
Pelo aniversário do Sangue e Solidão 
e por vocês estarem sempre aqui.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

O frio volta. Com ele, toda a balbúrdia necessária de sentimentos - eu precisava disso. É realmente estranho o papel de novo à minha frente depois de tanto tempo. Parece que tenho de me apresentar, dizer quem sou, em vez de simplesmente escrever. Fato é que não tenho boas histórias pra contar, nem estórias. Ou coisa que as valha. Como se eu fosse um tipo de irmã chata da Alice, de uma hora para outra preso aos livros sem gravura, sem me permitir uma xícara de chá sequer, uma única partida de críquete. O que eu queria mesmo era cair - não, pular - para sempre na toca do coelho, mas não tenho coragem. A única coisa de que sou capaz é ficar sentindo o vento gelado me bater no rosto e pensar. Em tudo. Em nada. Nessa constante e imutável nostalcolia que me é tão conhecida. Gostaria de ter algo. Mas, para se ter algo, é preciso mais que vontade. É preciso entrega, é preciso dom, é preciso ousadia. Quem me dera. Minha entrega é à minha cama, o dom é o de procrastinar e a ousadia é, desde sempre... Não. Não há nada de ousadia.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Quintal

pés que tomam banho n’água do céu
e mãos que lhes desnudam
frutas, frutos, furtos furtivos
saboreando o agridoce
com o cheiro de infância
e a roupa toda suja

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Momento

             H  O  R  A
    S  E  N  H  O  R  A
    M  E  L  H  O  R  A
          C  H  O  R  A
          A  G  O  R  A
          Á  G  O  R  A
             G  O  R  A  R
                O  R  A  R
                   R  A  R  O
                C  L  A  R  O
                   L  A  R
                   B  A  R
                      A  R
                      A  R
                      A  R

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Vazio

É isso, simples assim. Voltando às origens, ao ponto em que tudo começou. Inexplicável, repentino, arrebatador. Vazio. Luta eterna entre opostos, entre estados momentâneos de espírito. Polos. Vermelhidão. Música. Sempre pensamos que nunca é duradouro, principalmente quando é conosco. Contigo, convosco, comigo. Inimigo. Um peso nos olhos que há tempos não aparecia – e que não era para estar aqui, agora. O que deu errado? Aliás, alguma coisa deu certo? Retornar. Vontade de areia firme, onde as ondas – e que ondas! – não podem alcançar. É contraditório. Se teremos de correr, de atingir qualquer coisa predeterminada, como fazer? Eu não sei. Mais que apenas dizer, é preciso saber como proceder. Mas eu não sei, desculpe, a quem quer que seja. Dificuldade. Essa coisa de camadas, múltiplas camadas... Dor-de-cabeça. Olhar a lua gigante decalcada no grande lençol negro, pedindo-lhe uma solução, que no fim das contas não soluciona nada. Nada resolve. Vazio.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Anual

Happy birthday to you...

Tanta coisa já me propus a escrever, antecipadamente... E tantas vezes as palavras me faltaram, como numa espécie de sortilégio em que elas criam vontade própria e decidem não aparecer. Penso há muito sobre o que eu diria hoje, dezessete de janeiro de dois mil e doze. Um dia normal, ou não. Minha cabeça viaja à procura de algo que não seja repetitivo, mas aniversários sempre o são, em todos os sentidos.

***

Não, nada de diferente ocorreu quando o relógio mostrou meia-noite, com seus números fosforescentes piscando vermelhos lá dentro dos meus olhos. Tudo era igual, mas nunca tinha estado tão estranho. É claro que eu tinha a consciência de que quando a segunda desse lugar à terça, meu corpo, meus gostos e tudo o mais permaneceriam os mesmos - afinal, ninguém está verde num dia e no outro se apresenta pronto para colher. Mas o significado simbólico do avanço no calendário faz com que a gente pense que, sim, as coisas mudaram.

***

Um, dois, três, dezoito. Estou feliz. Porém, mais do que felicidade, o que está à minha frente é um gigantesco ponto de interrogação, que se insinua do alto de sua gravidade, olhando-me nos olhos e perguntando e agora?. E agora? Será que, a partir de hoje, serei uma pessoa diferente por ser legalmente responsável pelos meus atos? Se metamorfoses acontecem na vida, não acontecem tão de repente. Veja só, não sou muito distante do que eu era há dez verões (não gosto muito de primaveras). Quem sabe a gente não "mude" de fato, mas sim "troque de roupa" no decorrer dos tempos. E todos sabemos como é ruim trajar o mesmo todos os dias. Enfim. Talvez a vida seja exatamente isso: um grande guarda-roupas. Hoje visto mais uma. Feliz aniversário.