Concebido num providencial tempo livre.
Ele não sabia o porquê, mas quando chovia era diferente. Ouvia as gotas baterem no chão e sentia aquele cheiro tão único da água do céu que desce para lavar a terra. Não por acaso, a chuva era presença constante nos pequenos emaranhados de palavras delirantes, seus escritos. A chuva despertava coisas que não têm explicação, dizia. Pegou a garrafa e serviu-se de uma xícara de café, ao qual acrescia quase sempre uma ou duas doses de gim. Sentou-se à mesa de trabalho, com o murmúrio do choro celeste a ecoar alegremente nos ouvidos. Em suma, não havia nada de muito interessante na vida dele, a não ser a faísca de urgente lucidez quando rabiscava as ideias no papel. Era assim, normal. Gostava de quase tudo e não gostava de nada. A chuva era paixão, era tema recorrente, mesmo com a possibilidade nada remota de ser tachado (e de fato era) redundante que não tem outra coisa a lançar mão. Não se destacava dos demais; convenhamos, não se encontra por aí um diamante oculto no cascalho todo dia. De fato, ele não era diamante. Em contrapartida, era um cascalho dos bons. Daqueles que aprenderam a se deixar arredondar, melhorando sempre, pela força do tempo e da água. Água da chuva.

Lindo, Lindo !
ResponderExcluirNão era um diamante... Era um cascalho dos bons! Adoro isso!
ResponderExcluirMuitíssimo obrigado, pessoal! Fico feliz que tenham gostado. :D
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