domingo, 1 de agosto de 2010

Retrato

"Há um menino, há um moleque,
morando sempre no meu coração;
toda vez que o adulto balança
ele vem pra me dar a mão." ♪♫

Lembro-me de que, na sala, uma fotografia repousava calmamente sobre o aparador. Dentro da moldura, o passado congelado. Um menino, ainda inconsciente das dificuldades da vida, sorria de forma descontraída para a câmera. Uma bola, um livro e uma fatia de melancia acompanhavam o garoto e exibiam-se diante da lente. A conhecida nostalgia me invade novamente, a saudade de um tempo que bem podia voltar. Um tempo em que as preocupações eram do que iríamos brincar amanhã e o que a mamãe prepararia para o almoço.  Infelizmente, não se pode segurar a areia da ampulheta, ou fazer com que as folhas do calendário não virem. O curso dos dias é incontrolável. Um rapaz já crescido visualiza a tal moldura à sua frente, olha o riso solto do garoto preso até não sei mais quando. É, o tempo passa. O tempo passa e temos de acompanhar esta pasagem. Nós mudamos. O jovem olha novamente o retrato, recordando os sons, sabores, cheiros e texturas da infância. Sim, ele mudou. Mudou muito, aliás. Mas sente que, nos recônditos de sua alma, ainda é a criança dos olhos vivos e gargalhada aberta. De repente, o odor frutal toma conta e ele vê as mãos. Estão sujas do caldo da melancia. Um menino está absorto, enlevado pela fotografia de um rapaz. Há uma bola, um livro e uma fatia de melancia. Por um instante, o rapaz dá por si confinado no portarretratos, enquanto um garotinho olha fixo para ele. Nessa hora, é impossível distinguir a criança do rapaz.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Via Láctea

"Pegar carona nessa cauda de cometa;
ver a Via Láctea, estrada tão bonita.
Brincar de esconde-esconde numa nebulosa..." ♪♫

Já parou para observar o céu noturno? O negro pontilhado de luz, o brilho redondo da lua, a calma e a paz que se podem encontrar ao simples mirar do firmamento. Universo. A origem e o fim dos questionamentos humanos. Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? A resposta é múltipla, plural, e não podemos encontrar mais do que hipóteses. Mas, apesar de toda essa atmosfera de impossibilidade - ou justamente por causa dela -, é fascinante tentar decifrar os mistérios cósmicos. Uma cadeira reclinável, um cobertor e doses nada homeopáticas de café. Isso mais uma noite clara de inverno. Olhe para cima e imagine-se lá, descobrindo os segredos celestes. Garanto que é bom. Aqui do chão, vejo o belíssimo cinturão de estrelas, caminho leitoso que encanta há gerações. Essa grandiosidade inexplicável é o que atrai, seduz e prende. É exatamente essa falta de certeza que tem motivado mais e mais perguntas. Deleito-me, reles mortal, com tal espetáculo da natureza. A Via Láctea circunda a Terra num abraço luminoso, unindo-nos à intrincada amarração sideral. Galáxias e nebulosas, planetas e buracos-negros. Os astros dançam à minha volta e eu me perco na vastidão lática. Nós também somos o universo.

domingo, 25 de julho de 2010

Sementinha

A família toda reunida na sala, assistindo ao costumeiro programa noturno. É uma noite tipicamente dominical. Vovô e vovó, em meio a bocejos e escarros, também estão presentes. Uma cena linda. Chegam os comerciais e Pedrinho rompe o silêncio para sanar uma dúvida. - Papai, de onde eu vim? Todos os olhares passam a ter um único destino. Os tios não escondem o espanto. Vovó, ruborizada, pega da agulha e começa um tricô há muito inacabado. Vovô finge que dorme, os óculos na ponta do nariz. - Bem, filho, você saiu da barriga da mamãe. Ufa, pensou o pai, me safei dessa. Agora ele vai voltar a ver tevê e eu fico em paz. - Isso eu já sabia, papai! Quero saber é como fui parar lá dentro! Os tios disfarçam, tentam parecer invisíveis. As mãos da vovó se movem com mais rapidez, e o vermelho no rosto aumenta incrivelmente. Vovô começa a roncar, implorando para ser convincente. - Olha, filho - diz, entre suores, o pai -, o papai colocou uma sementinha na barriga da mamãe. A sementinha cresceu, cresceu e virou você! Agora sim, ele tinha se saído bem, não?

O pai olha para vovó, que responde com um olhar de "não sei de nada, o filho é seu". Vovô segue firme no ronco. E os tios? - Mas, papai, como é que você colocou essa sementinha na barriga da mamãe? O pai recomeça a suar, vendo que não haveria escapatória. Um tio se levantou, ia ao banheiro. Outro foi fumar lá fora. A tia foi ver se o cachorro tinha água. O tricô da vovó estava quase acabando, o que não era uma boa notícia. Os roncos do vovô passaram a chiados irônicos, como se ele quisesse dizer "você vai ter que explicar". Mas como explicar o sexo a uma criança de cinco anos, como?! As mãos trêmulas, o embargo na voz, o pai finalmente começa. - Então, filho, eu e a mamãe...

Súbito, um ruído baixo e breve. Mamãe - que até agora não tinha se manifestado - estava com o controle remoto na mão. - Olha, filho, tá passando desenho! Pedrinho se volta para o televisor, extasiado. É o seu desenho favorito. O pai olha, apreensivo, ao redor, esperando alguma reincidência do filho. Ao cruzar seu olhar com o da mãe, vê o sorriso esboçado no rosto dela, dizendo "me agradeça". Os tios voltam, incertos, e retomam seus lugares. Vovó guarda o tricô quase pronto na sacola, e agora o único vermelho em seu rosto é a leve cor da maquiagem. Vovô acorda e boceja. - O que foi que aconteceu? Papai abre as mãos e estica os dedos, aliviando a tensão. Está mais tranquilo agora. Por esta vez, ele conseguira. Sentada na sala, a família reunida. É um lindo quadro de domingo!

sábado, 24 de julho de 2010

Café

Um haicai disforme - e preto

Da moagem e da torra do grão
Vem a quente e mágica bebida
O infinito dissolvido na infusão

Livre

E hoje começo sem rumo ou planejamento. É apenas o ímpeto que me faz pegar do papel e carbonizar os impulsos eletromagnéticos que me percorrem os neurônios a toda velocidade. Sons, sabores, cheiros, tudo misturado. Sinestésico. Lápis de cor, giz de cera, aquarela. Acordes surrealistas, deixemos o inconsciente aflorar. Café, bebida mágica! Lucy está aqui - a garota dos olhos de caleidoscópio. Aforismas de Hipócrates, sonhos freudianos. Lápis, caneta e sabe-se lá o quê. Escrevo livremente hoje, como se a criação fosse agora e tudo fosse a primeira vez. Gargalhadas familiares, sangue nas veias de todos nós. Histórias. Rins, coração e pulmões. Cigarro e álcool. Não sei se estou bem. Falta-me consciência, talvez. Será? Pode ser que o que me falta seja controle. Pele quente e áspera. Febre? Vai, capricórnio teimoso, realiza! Lâmpadas fluorescentes ofuscam-me a visão. Risos pueris com doses generosas de açúcar. Empolgação que inunda, transborda. Creio que descobri onde isso vai parar. É o concerto onírico. Tremem-me as mãos e o lápis balança furiosamente. Água de torneira. Que o Valium seja minha salvação.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Cigarro e Hotel

"E achava que ia ser herói,
fumando um Hollywood, vendendo saúde;
navegando doido, doido, doido, doido e sujo de sal." ♪♫

Meus olhos, vermelhos de tudo, ardem. Será a fumaça? Perdi as contas dos cigarros que já traguei hoje. Na boca, o sabor da menta, do couro e do tabaco. Cheiro minhas mãos, o odor do fumo está impregnado na pele. O pequeno bastão branco pende, trêmulo, entre meus dedos. Vem e me invade aquela conhecida sensação, mistura deliciosa de prazer e medo. O que faço é certo? Debruçado sobre o parapeito da janela, a uns bons sete metros de altura, olho o negro do céu e deixo o vento frio roçar-me livremente a face. Os vidros se estendem à minha direita. É estranho pensar num lugar que abrigue tanta gente distinta, cada qual com sua história, sob o mesmo teto. Lá embaixo, alguém cruza a rua com passos lentos. A dança do etéreo gás cinza e o leve brilho alaranjado acompanham o vulto em sua trajetória. Somos irmanados no vício. Tenho vontade de voar, correr no firmamento, com a cabeça livre de banalidades e censuras. Por um momento, estou em meio às nuvens, numa agradabilíssima noite de inverno. Há uma pessoa com o tronco pairando sobre o chão, a mais ou menos sete metros de altura. Está fumando, enfiado numa janela de hotel. É engraçado estar em dois lugares ao mesmo tempo. Divirto-me na imensidão celeste, diáfana, mas tenho de voltar a mim mesmo. Ouço uma voz longínqua. Pouco a pouco, vai ficando nítida. - Não pode fumar no quarto! Por Deus, é a camareira. Afinal, fecho a janela e recolho-me à nulidade de todo dia.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Cadarços Desamarrados

Tropeços fazem parte de nossa vida. Caímos, levantamos e retomamos o rumo. E é isso o que nos faz aprender. É o que nos ensina como viver. O que seria de nós se nunca errássemos? Se fôssemos sempre bons? As quedas são fortalecedoras, são estimulantes, nos fazem perceber os equívocos do caminho. A partir delas, evoluímos enquanto seres humanos, e mais correntes são quebradas. Por conseqüência, vamos deixando a condição de prisioneiros e conquistamos mais liberdade. Liberdade. É tão estranho pensar que seja necessário cair para ser livre. Paradoxal, eu diria. Mas, por mais estranho que possa parecer, liberdade adquire-se a duras penas. No entanto, quanto mais liberdade conseguimos, menos medo sentimos de tropeçar. É que, livres, sabemos que as quedas virão apenas a nosso favor. Percebemos que as “pedras no caminho” nada mais são que uma escola. É como andar com cadarços desamarrados. O cair é iminente, sabe-se do risco que se corre, se porventura a gente pisar num deles. Porém, ao mesmo tempo, os pés têm mais espaço e o calçado fica mais confortável.  É assim a nossa vida – um grande sapato. Podemos andar seguros, mas com os dedos apertados; ou podemos até cair, mas sem incômodos pés doloridos. Enfim, a escolha é nossa. Afinal, cair é preciso. E é muito melhor cair sem uma dor a mais para atrapalhar. Sejamos livres, pois. Desamarremos nossos cadarços.

domingo, 18 de julho de 2010

Flor de Laranjeira

Vi-a. Resplandescente e alva, com muito sangue a adornar os lábios. Contemplei-a. Os contornos voluptuosos sob o preto da seda enchiam-me de furor e desejo. O colo nu, os quadris enlouquecedores, o pescoço delgado, os olhos lânguidos – tudo nela era harmônico e coerente, uma sinfonia para os olhos. Trazia presa nos cabelos uma flor de laranjeira. Ah, como era linda! Na cama com dossel, as horas magníficas e derretidas em companhia dela. Reminiscências d’As Mil e Uma Noites, os contos de Sherazade. E tudo em nós convergia ao amor leviano. Bocas que se perdiam, línguas que se encontravam, braços e pernas à procura de combater a solidão. Quedei-me eu manchado pelo seu sangue.  Sua pele branca, cândida, macia, roçando a aspereza queimada de minha tez. Intumescidos estávamos, por inteiro. Inebriados. Entregues ao puro, velho e simples gozo. O êxtase. E, unido a ela, como dependesse disso minha sobrevivência, entregamo-nos ao estupor do sono. Dali a pouco, despertamos. Alvorada, sol raiando. Ela já coberta do negro, entreviam-se os belos seios. Eu, vestido de todo, fui-me embora. Fomo-nos embora. Inesquecível, deveras inesquecível. Momentos ímpares, singulares, indeléveis na memória. Na alcova, resquícios do entrelaçamento de nós dois. Sobre os lençóis, exalando uma última lufada de perfume, descansava, plácida e sublime, uma flor de laranjeira.

Ego

Estive ontem com Narciso. Olhamo-nos n'água, em reflexo. Co'as ninfas a encher o recanto, ouvi nítida a base de Freud. Narciso me disse: eu.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Eleanor Rigby

"Ah, look at all the lonely people!" ♪♫
 
Eleanor Rigby apanhou o último grão de arroz, que repousava placidamente no chão da igreja. Havia pouco tempo, mais um casamento se realizara. Eleanor pensava, melancólica, na felicidade dos noivos. Guardou o grão na bolsa, hoje tinha acumulado uma boa quota. Foram vários enlaces. Muitos, mais do que ela gostaria de se lembrar. Os vincos na pele delatavam a imensa quantidade de arroz que ela apanhara. Desceu as escadas e foi. Ela vive em um sonho - e sabe disso. Na sacristia, padre McKenzie rascunha o sermão da próxima homilia. Ele tem consciência de que ninguém o ouvirá. Os casamentos eram o único toque especial. O amor inundava o ambiente e amenizava a solidão do pobre clérigo. Ninguém o ouvirá, mas o padre continua escrevendo. Um dia, ele pensa (sonha), alguém escutará um sermão seu. É noite. Eleanor espera na janela, portando um rosto que guarda num jarro perto da porta. Quem ela aguarda? Para quem é esta face? No mesmo instante, o padre remenda suas meias, trabalha. Ninguém o vê. Com o que ele se preocupa? Alguém passará por lá? O tempo avança, e a porta da morte se abre para Eleanor. Foi enterrada na igreja, naquela igreja onde havia juntado tantos grãos de arroz - as miúdas lembranças de uma alegria que ela não pode viver. Ninguém apareceu. Andando com passos tristes, padre McKenzie limpa a sujeira das mãos. Tinha lido o sermão, embora aquela que poderia ouvi-lo estivesse morta. Ninguém foi salvo por ele. Nem Eleanor, nem ninguém. Enfim, a solidão costumeira. Companheira fiel. As pessoas solitárias, de onde vêm? De onde são? Olhe, por favor! Olhe todas as pessoas solitárias.