As luzes dos postes passavam em intervalos mais ou menos regulares, à medida que ele avançava em sua trilha solitária. O barulho do vento, as pisadas no asfalto, as batidas do coração. O negrume da noite envolvia tudo e ele andava sem rumo, movido por um súbito e estranho ímpeto. O único que sabia era a necessidade de caminhar. Para onde, ele ignorava. Martelava sua mente um comando. Ande, apenas isso. Talvez não houvesse causa. Volveu os olhos ao firmamento – bela palavra essa, firmamento – e contemplou a lua, circundada por um halo multicor. Tropeçou. Concentrou-se novamente no caminho; os cadarços desamarrados, como sempre. Quando deu por si, viu a grade carcomida e enferrujada dos portões do cemitério. Ele não havia, pelo menos não de forma consciente, planejado ir até a morada dos mortos. Mas, já que ali estava, entrou. Nunca se imaginara naquele lugar àquela hora, e sentiu uma torrente de adrenalina percorrer-lhe o sangue. Gostou da sensação, da mórbida mistura de satisfação, medo e outros temperos que conferiam um sabor agridoce à tão ímpar experiência. Encontrou a enorme cruz. Não mais controlava as ações. Estava tomado por algo inexplicável. Confuso, fúnebre e divertido – tudo ao mesmo tempo. Ajoelhou-se. Disse de si para si coisas ininteligíveis. Por fim, encontrou uma defunta estonteante. Ei-lo, o motivo. Destino, talvez? Ele conversou, riu e amou a noite inteira. Depois, ao primeiro clarão solar, deixou velas e lápides para trás. Descarregara a tensão. Seria loucura?
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
domingo, 19 de setembro de 2010
Domingos
Era o seu casulo doméstico. A tevê ligada naquele velho programa dominical, a chuva banhando tudo lá fora, e o cobertor devorando-a num abraço quente. Os olhos sem vida, repetindo metodicamente o que acontecia todo final-de-semana. Não gostava de pessoas. Tinha medo delas. Vez ou outra, as mãos se moviam e pressionavam o botão do controle remoto. Tudo automático. O batom borrado, o preto nos olhos, ali estava. Inútil. Acompanhada de solidão numa tarde de domingo. Chove mais, ela pensava. As gotas cadentes e o frio despertavam-lhe algo mais ou menos próximo da felicidade. É claro que ela imaginava como seria se fosse diferente. Embrulhava-se mais no cobertor e o pensamento esvanecia. Repudiava ímpetos de motivação e qualquer coisa que pudesse fazê-la sentir-se melhor. Ela sabia que era uma vergonha. Que sua vida não fazia nem faria diferença. Que ela nunca voaria mariposa. Marlboro Red perdido nos lábios, esperava os ponteiros girarem, implorava que girassem rápido. Envolta no calor felpudo, inexpressiva. Um dia o fim chegaria, com certeza. Quanto mais cedo, melhor. Odiava a própria estagnação, a medíocre droga da metamorfose não-concluída. Mas não era capaz de acabar com tudo sozinha. Esperava, então, o momento, no ritual invariável da clausura. E seguia assim. Apenas uma lagarta.
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Catar Feijão
A João Cabral de Melo Neto.
Se catar feijão se limita com escrever,
Comê-lo se limita com a leitura
Mastiga-se, engole-se as palavras
Os meandros cerebrais são análogos ao tubo digestivo
No fim, para uns, ficam os nutrientes, a energia!
Para outros, não há absorção;
Há apenas fezes.
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Algum Lugar, 23 de março de 1990.
Querida,
Sabe, já pensei em ser mais cavalheiresco, dizer eu te amo, expressar meus sentimentos, oferecer ajuda pr'aquelas coisas que você diz não conseguir fazer. Já pensei em tudo isso. Mas acontece que, se eu o fizesse, não seria eu. Você sabe que eu tenho essa casca grossa, que minhas mãos ásperas não fazem carinho da forma que você deseja. É meu jeito de ser, querida, não que eu queira ser assim. E - eu sei que você sabe - até esse "querida" está sendo dificílimo para mim. Talvez por isso eu só consiga dizer o que estou dizendo por meio escrito. As palavras sempre foram minha válvula de escape, a única forma de eu dar vazão ao que acontece lá dentro. E, sim, eu sei que já troquei você por essas minhas companheiras, inúmeras vezes. Sei que fui ausente. Me desculpe. Peço-lhe, agora (se é que estou em condições de pedir algo), não que aceite, mas que perdoe tal ausência minha. E que, quando ler isto aqui, saiba que estou lhe falando a verdade, apenas não sei demonstrar meu amor. Não demonstrar é diferente de não sentir. E eu sinto tanta coisa... Tanta coisa...
Difícil, mas carinhosamente,
do seu.
domingo, 5 de setembro de 2010
Autocrítica
Tudo bem, eu sei que minhas tentativas de piada não foram bem-sucedidas. Mas fico feliz em ver você rindo delas, apenas para não me constranger. Você é tão... Sim, eu tentarei parar de criticar meus próprios gracejos; não mais diminuir a mim mesmo. Você disse “não seja tão autocrítico”. Mas é involuntário. Sempre haverá um defeito que eu sentirei a necessidade urgente de corrigir. Gosto de sua confusão com as minhas brincadeiras, não sabendo se falo a verdade ou o oposto do que estou dizendo. Confusa e linda. Não se incomode com meu perfeccionismo, ele vem automático. E prometo que tentarei desusar o sentido figurado, ou qualquer jogo de palavras que te confunda ainda mais. Saiba, porém, que é magnificamente bela a idéia de você com o cenho franzido tentando decifrar o obscuro das minhas palavras. Não me queira mal por isso, por gostar de te ver confusa. De fato, é belíssimo. E, como disse, não consigo evitar.
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Angústia
Droga de espera que não finda! Pungente. Pesada. Terrível. A mente produz toda sorte de desfechos, de possibilidades, de trajetos. Serei ou não punido? Serei ou não punido? Qualquer castigo é melhor que essa incerteza.
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Nostalgia
"Prefiro o clássico de um vinho tinto.
Abaixo o novo padrão e sua glória." (G. F. Jarbas)
Ele se perguntava se toda a sua felicidade compor-se-ia de imagens congeladas e fragmentos de coisas acontecidas. Se ela seria apenas a síntese dos indeléveis momentos já vivenciados. Por que não havia a empolgação com o agora ou a ansiedade receosa do amanhã? Por que parecia que as únicas coisas boas - incluindo música e gente - eram de tempos anteriores? Talvez nascera na época errada. Ah, se pudesse voltar algumas décadas! Gostava do preto-e-branco, de vozes esquecidas, de velhas tradições. Sentia-se deslocado. Mais, sentia saudade de algo que não vivera. Uma espécie de déjà vu abstrato. Como isto se explica? Não conseguia entender, em absoluto. Todos os seus verbos conjugavam-se no pretérito.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Camuflagem
"Rapte-me, camaleoa.
Adapte-me ao seu ne me quitte pas." ♪♫
Adapte-me ao seu ne me quitte pas." ♪♫
Definitivamente, ela era mestra. Multifacetada, sabia que rosto usar em cada situação. Não demonstrava fraquezas - a não ser quando elas eram falsas e revelá-las fazia parte do jogo. Sem contar o hiato que havia entre ela de dia e a Brigitte noturna. À noite, ela se transformava. Transformações eram sua especialidade. Houve um dia, porém, em meio ao seu teatro francês, no qual ela se percebeu transparente. Visível na essência. Sentiu que aquele, então, não era alguém comum. Ele a via. E via de modo completamente distinto de todo os outros que já estiveram nos seus braços. Nesse dia, banhada em suor, o batom borrado, ela soube que não mais precisaria se esconder. Súbito, toda a sua coleção de máscaras caiu e desfez-se em vários pedaços. Ali estava ela, animal indefeso. Pelo branco contra mata escura. Os dotes camaleônicos já se tornavam falhos. Numa estranha combinação de fatores, num momento igualmente estranho, embalada pelo desagradável som dos gemidos do quarto vizinho, ela se mostrava por inteiro. Ela era feliz. Pela primeira vez.
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