Sinto-me como estivesse apodrecendo. Não por fora; mas lá dentro. Corroem-me os menores problemas, e eu sei que não devia ser assim. Pode ser uma fase, pode ser eterno, pode ser tudo. Ou nada. Eu não devia ser tão mesquinho, o nome disso é mesquinhez? Ou será que minha expectativa foi tanta que a realidade não deu conta de alcançá-la? Depois, fico remoendo argumentos, na decomposição fétida e lenta que acaba comigo. Dia após dia, vejo as cores de tudo. Olhos que brilham, mas, lá no fundo... Lá no fundo, meu interior vai ficando putrefato.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Curitiba
Elucubrações românticas de um vestibulando.
À subida das serras, eu fantasiava toda a sorte de cenários, vislumbrando ambientes surreais, oníricos, com a ansiedade percorrendo meu corpo a Mach 3. Chega logo, eu pensava. E por fim cheguei. Curitiba me recebeu altiva, numa noite tão noite que pululava de estrelas no céu e no chão, estrelas caídas. Ao descer, inundei-me com o ar frio carregado de saúde e de letras. Era ali, sim era ali que eu teria de ficar. Nas esquinas e travessas, me deparava com Paulos e Helenas e Daltons, cujos amores, histórias e poesia não tinham e não têm fim. A Botânica, o Passeio, a Ópera. Cada vez era maior a certeza de que não poderia ser outro lugar. Queria ser médico, queria ser vampiro, queria ser marginal. Contemporaneidade. Envolver-me na caçada, buscar a cidade perdida; quem sabe alguém a encontrasse. Um ligeiro sol mostrou sua figura, apenas para conferir aquele punhado exato de luminosidade à paisagem que se exibia ante meus olhos. O sol cansou e começou aquele véu de noiva de neblina fina, tão convidativo a uma sopa com queijo e uma xícara de café. Foi assim. Avaliado estive e avaliei também. E despedi-me do meu utópico objeto de lar futuro, desejoso de voltar e quedar-me ali até não sei mais quando.
sábado, 13 de novembro de 2010
Lapsos
Ela briga comigo por conta da pasta de dente destampada; do tapete revolvido; das meias e cuecas jogadas em qualquer canto; do fogão sujo de queijo; dos chinelos revirados; de eu tomar as coisas direto na jarra; da tampa da privada com um ou dois pingos de urina. Se a pego de surpresa no banho, porém, ela ignora esses meus defeitos. E, quando caímos entrelaçados na cama, ela nem mesmo coloca reparo na toalha úmida que sempre esqueço sobre o lençol.
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Descoberta
- É um maço de cigarro, não tá vendo?
- Claro que é cigarro, Renata. Quero saber o que está fazendo na sua bolsa.
- Vai lá, inteligência rara: três chances pra você adivinhar.
- Não fale assim comigo. Apesar de você parecer não se lembrar, eu sou seu pai.
- Ah, não. Pode parar por aí. Não aguento mais ouvir seus sermões.
- Se você não gostasse de ouvir, não faria o que faz.
- Ah, é?! E o que é que eu faço de tão medonho?
- Minha filha, você anda por aí bebendo, com essas roupas de mulher que não tem respeito. E agora deu para fumar? Por quê?
- Ora essa, fumo porque quero. Agora vaza, me deixa em paz.
- Você não imagina o desgosto que está dando à sua mãe, que Deus a tenha. Ela não suportaria te ver fumando.
- Desgosto?! Hahaha, mamãe fumava escondida! Só você que não sabia. Aliás, foi ela quem me deu meu primeiro cigarro. Lembro bem, era um Marlboro vermelho.
- Santo Deus, isso é verdade?!
- É, pai, é verdade. Agora vai, será que você vai embaçar só por causa de um maço de cigarro?
- Sua mãe fumava... como eu não percebi?
- Ela sabia não deixar pistas. Eu tinha muito a aprender com ela.
- Ela fumava...
- Tá bom, pai. Vai digerir a informação lá embaixo. Não estou com paciência pra lamuriações sobre descobertas. Além do mais, ainda tenho vários Caribe a tragar.
- Caribe? É aquele de menta?
- É, por quê?
- Deixa eu experimentar?
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
Garimpo
Concebido num providencial tempo livre.
Ele não sabia o porquê, mas quando chovia era diferente. Ouvia as gotas baterem no chão e sentia aquele cheiro tão único da água do céu que desce para lavar a terra. Não por acaso, a chuva era presença constante nos pequenos emaranhados de palavras delirantes, seus escritos. A chuva despertava coisas que não têm explicação, dizia. Pegou a garrafa e serviu-se de uma xícara de café, ao qual acrescia quase sempre uma ou duas doses de gim. Sentou-se à mesa de trabalho, com o murmúrio do choro celeste a ecoar alegremente nos ouvidos. Em suma, não havia nada de muito interessante na vida dele, a não ser a faísca de urgente lucidez quando rabiscava as ideias no papel. Era assim, normal. Gostava de quase tudo e não gostava de nada. A chuva era paixão, era tema recorrente, mesmo com a possibilidade nada remota de ser tachado (e de fato era) redundante que não tem outra coisa a lançar mão. Não se destacava dos demais; convenhamos, não se encontra por aí um diamante oculto no cascalho todo dia. De fato, ele não era diamante. Em contrapartida, era um cascalho dos bons. Daqueles que aprenderam a se deixar arredondar, melhorando sempre, pela força do tempo e da água. Água da chuva.
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Lemniscata
Lembra a gente estudando matemática? Você me dizendo coisas impossíveis sobre álgebra e funções, e eu com a cabeça a flutuar por todos os lugares em que não houvesse números. Você me disse ei, não tá prestando atenção? e eu finalmente prestei. Prestei atenção à sua boca pronunciando aquelas coisas ininteligíveis, mas que me pareciam tão belas aos ouvidos. Seus dentes brilhavam. Você me olhou com aquela cara tão sua que trazia uma miscelânea linda de repreensão e riso. Não tá me ouvindo, né? Não sei por que ainda insisto em tentar te ensinar alguma coisa, seu bobo. Olha, o conjunto-solução é o intervalo de menos infinito a mais infinito. Desenhou-me o oito deitado, o lemniscata, naquele traço contorcido que não acaba nunca. Infinito. Naquele dia, véspera de prova, fim de ano, eu não aprendi coisa alguma de matemática. Mas você conseguiu me ensinar algo. Infinito. Naquele dia eu conheci o infinito.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Flash
Recorrente e redundante.
Ouço o som do All Star pressionando os pedregulhos e desejo que esta sensação não finde nunca. Eternamente embriagado, seria eternamente bom. Sigo, sigo andando, braços e mente abertos, sem quaisquer preocupações frívolas que me possam dizer respeito. E que o amanhã demore. Demore bastante. Para que a dor-de-cabeça da ressaca e da normalidade me atinja o mais tarde possível.
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Divã
Sabe, doutor, a verdade é que não sei porque estou aqui. Vi sua placa e fui tomado por uma coisa que não sei definir. Mas cá estou, não é? Então. Tá tudo tão difícil, doutor, o senhor nem imagina. É discussão, briga, dívida, e eu não faço ideia de como sair desta situação. Meu único refúgio são os livros. E meus únicos amigos ultimamente têm sido Nietzsche, Rimbaud e Freud. Freud é conhecido seu, não é, doutor? Desculpe. O fato é que preciso dar um jeito nisso. Não aguento, não aguento. Minha mulher nem imagina o turbilhão que destrói minhas poucas seguranças. Nesse momento ela deve estar lá em casa, esbravejando, onde diabos eu estou, e que vai queimar todo aquele monte de papel inútil. Palavra não paga conta, ela diz. Isso dói. É, doutor, não é nada fácil. Estou com toneladas de problemas a me esmagar a mente. Creio que estou ficando louco. Acho que já estou. Ah, meu Deus, seria muito engraçado, se não fosse essa merda que é. Desculpe, doutor, saiu sem querer. Preciso sumir, sabe, é isso. Esquecer um pouco essa porra de vida que desce pela garganta qual comida fria. Eu sei, doutor, vou tentar me controlar. Quem dera eu pudesse ir-me embora pra Pasárgada e ser amigo do rei. Mas chega dessas baboseiras literárias, estou cansando o senhor. Acho que não devia ter vindo. Veja o senhor, há anos que eu não chorava. Esqueça. Esqueça-me. Não, doutor, eu é que peço desculpas. Definitivamente, não devia ter vindo. Adeus. Adeus, doutor. Vou lá tomar mais um copo dessa cerveja choca que é a minha existência.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
sábado, 16 de outubro de 2010
Ruptura
Um sábado esquecido de 1990.
Enrolado recém-nascido no cobertor, ele jazia indiferente numa noite chuvosa. Estava consciente, por quê? Uma xícara inacabada de café e meio cigarro ardendo sobre o assoalho. Um livro aberto sobre o peito. Nietzsche mais chuva é bom. Não é? De vez em quando, assoava o nariz, maldita alergia! Olhava o catarro verde-amarelo com ar divertido, ou algo parecido com diversão. Não tinha nojo. Bebeu mais um gole do líquido negro, frio, que seja. Deixou o Ecce Homo definitivamente de lado. E, esforçando-se sobremaneira, libertou-se da morna prisão de lã. Não gostava das vicissitudes da vida, elas eram por demais inoportunas. Se bem que no fundo, bem lá dentro daquilo que chamam de consciência, ele sabia que a coisa toda era culpa dele. Lavou a cara, olhou-se no espelho do pequeno banheiro inundado pela luz cor de âmbar. Viu dois olhos opacos, um nariz sujo de catarro - droga de alergia! - e uma boca mais risco do que boca. Pegou a toalha vermelho-sangue com pulso duro e esfregou-a com força no rosto, quem sabe ela mudasse algum traço naquela tela assimétrica. Rindo pela primeira vez, lembrou-se de quantas vezes havia se masturbado naquele lavabo mínimo. Homenagens prestadas. Eufemismos. Afastou as reminiscências, hoje não queria ser nostálgico. Nostalgia infame, essa. Apagou a luz. Apanhou o cigarro do chão da sala e sorveu a última gota que descansava no côncavo da xícara. Pensou em Brigitte, como é mesmo o nome verdadeiro dela? Brigitte... Na sua transformação menino-homem, a francesa de mentira ocupava papel de destaque. Não gostaria de entregar-se assim às memórias, mas via que era ineficaz. Dirigiu-se à varanda e deixou-se lavar o corpo. Por que não a alma? Desatou a correr pela grama, louco, feliz, inexplicável, inesperado. Foda-se tudo, pensou. Promoveria a própria vicissitude. A vicissitude do ser. Estava acostumado com a melancolia acompanhando-o diariamente. Mas hoje não. Hoje não.
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