sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Fazia tempo que não chovia. E, quando a água começou a cair, suave, quase sem ruído, foi como se a bolha que o envolvia se tivesse rompido. Percebeu que não dá pra fugir da essência. Não dá. Se somos temporal, não funciona vestirmos cascas ensolaradas. Por falar nessa dicotomia, ainda bem que o céu pingava. Refrescar ao menos um pouco o clima. Achava que janeiro tinha sido quente, mas fevereiro chegou mais, com seus dias abrasadores. Fervereiro. Ele estava cansado do calor, cansado de dizer sempre a mesma coisa. Cansado. Ou seria melhor dizer desiludido? Ou, ainda, cansado e desiludido? Por que se matava com toda essa psicologia, em vez de se matar na ação? Pensar, pensar, pensar... Pensar enlouquece. Ele era louco. Lúcido. Lucy in the sky. Foi tomar banho de chuva, redundando como sempre.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Gravidade

eu caio
tu cais
caímos nós, inebriados
e nossas roupas
elas também caem
tudo vem abaixo belo
apenas nus, não mais graves

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Causa e Efeito

Levantou-se. Rolar na cama por horas não resolveria o problema. Esfregando preguiçoso os olhos remelentos, foi descalço até o outro lado do quarto, sentindo o frio do azulejo ocre subir pelas suas pernas e provocar-lhe um arrepio. Procurou o interruptor no escuro, tateando, até que o botão se fez aparecer sob os dedos tortos. Acendeu a lâmpada incandescente, que espalhava um brilho alaranjado e difuso pelo aposento, e abriu a tampa da vitrola. Lá estava. Repousando plácido sobre a bandeja, aguardando o movimento do braço e o toque sibilante da agulha, o bem maior que possuía. The Beatles – White Album, Disco 1. Desejado durante meses e adquirido como prêmio após uma economia quase impossível, o disco emanava alguma coisa que seu dono não podia explicar. A começar pela capa, diferente de qualquer outra que já tinha visto. Completamente branca. Crua. Apenas o nome da banda em relevo, para constar. Depois, é claro, vinham as músicas, mostras ímpares de genialidade gotejadas em minutos rítmicos e pungentes. Bocejando e coçando o saco, pôs o vinil para tocar.

Sempre preparava uma garrafa térmica antes de dormir, para os casos em que este dormir não fosse possível. Deixava-a sobre a escrivaninha, ao lado do maço de cigarros e do isqueiro. Música, café e fumo. Era a combinação perfeita para as noites de insônia, aquelas noites em que o tempo parecia derreter e passar cada vez mais lento, provando que tudo é relativo. Serviu-se de uma xícara e acendeu um dos vermelhos. Queria deixar-se levar pela melodia, flutuar leve e sair dali, para algum lugar em que não se sentisse o verme que parecia ser. A falta de sono colaborava; nessas horas a mente ficava mais fervilhante que nunca, e trazia à superfície perguntas que ele não queria responder. Na verdade, mais que meras indagações; eram verdades, constatações, provas tristes de que sua vida não valia merda nenhuma. Pegar as asas quebradas e voar, voar para longe, como o pássaro que debuta na planagem, era o desejo. Mas sentia-se absolutamente incapaz de sair do seu ninho repleto de vazio. Novamente um verme.

A imagem dos amigos – se é que podia chamá-los assim – passou célere ante os seus olhos. Como é que eles podiam ser tão felizes? Aliás, o que é mesmo felicidade? E como, meu Deus, como conseguiam todas aquelas mulheres? Ele não compreendia. Ele, que sonhava encontrar sua Molly no supermercado abstrato da existência. Sua única Molly. Via que não iria suportar, era tudo sufocante demais. Terrível demais. Doloroso demais. Não queria ser assim, definitivamente. Parar de pensar nessas coisas, ser alguém normal, pra acabar com essa melancolia tão incômoda. Dormir, precisava dormir. Mas agora, também, que se fodesse o sono, encheu de novo a xícara e descobriu o fogo mais uma vez.

Lembrou de outra música do quarteto, uma que não estava inclusa na sua preciosidade. Uma música que falava sobre certo “homem de lugar nenhum”. Era exatamente essa a visão que tinha de si. Deslocado, pertencente a nada, o clichê do zero à esquerda. Será que sentiriam sua falta, uma única pessoa que fosse? Tinha certeza de que não. Mas tinha também um motivo para permanecer. O disco comprado com um esforço do cão era a única coisa que o fazia afastar a ideia de findar com o sofrimento. Algo de bom no meio de tanta podridão. A música. O símbolo. Os trezentos reais mais bem-gastos de sua vida. Espere, eu disse “vida”?

Coçou novamente o saco e mandou pra dentro mais café, mandando qualquer possibilidade de sono para o diabo que a carregasse. Pensou em como tinha planejado o tempo insone; ouviria um pouco de música e logo as pálpebras pediriam para se fechar. Planejamento esse que ele sabia que não funcionaria; a garrafa térmica estaria lá, toda prosa. A verdade é que era cônscio de que não dormiria, mas planejava mesmo assim, talvez para fingir que tivesse controle sobre alguma coisa. Mas não tinha. E agora não dava mais. Acabou com o líquido quente e pseudoacolhedor. Fumou mais um cigarro. Arrancou, com raiva, o disco da vitrola, e sentiu verdadeiramente o arranhão que a agulha imprimiu na superfície negra. Olhou-o bem, era dor real. O item mais precioso... O único. Quebrou o disco em quatro partes. Agora nada o impedia. Sem motivos para viver, estava livre. Pegou a faca que mantinha escondida no guarda-roupa e deslizou o fio com cuidado na articulação do punho. Não lhe doeu mais que a fratura da sua relíquia. Por alguns intermináveis minutos, viu o sangue escuro macular a imensidão alva da capa do White Album. Depois, não viu mais nada.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Iguassu

Do tupi-guarani, 
"Ig": água. "Assu": grande.

De fato, era muita água. Água grande. Toda aquela preciosidade se derramando pedra abaixo; caindo, com fúria, sobre a fenda de M'Boi. Indigenamente shakespeariano, me vem à mente o amor de Naipi e Tarobá, a pedra e a palmeira. E eu cá, sedento pelo cauim contemporâneo, louro de cevada; na passarela, molhado, apreciando a magnitude hídrica. Resolvo fazer um pedido - também sou turista, afinal. Viro-me de costas e cerro as pálpebras. O som das quedas se fortalece. Lanço minha moeda, e ela gira tão bailarina no ar! E brilha úmida, cara coroa cara coroa. Por fim, junta-se às outras lá no fundo, inúmeros desejos, inúmeras gentes, inúmeros tempos. O arco-íris me sorri um sorriso cúmplice e curioso, como dissesse "conte-me". Abaixo a cabeça, sorrindo também, e vou-me embora, repleto de gotas - fragmentos do suicídio do rio Iguaçu. Olho para trás uma única vez, derradeiro recado para o aro-íris. - É segredo!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Vento

O venot
baetu e msitrouu
pedçaos do meu pemoa.
Fciou tdou bagnuçdao.
Noã tem masi peoma.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Dezessete

Porque janeiro chegou e trouxe consigo a tão comum nostalgia sinestésica. Vêm a mim excertos de vida, fragmentos de existência que às vezes penso se não foram sonho. Essa época é por demais estranha, provoca uma infinidade de sensações que não sei distinguir, quanto mais classificar. São os números aumentando e eu realmente não sei se isso é bom ou ruim. É claro que sempre há aqueles votos comuns (eu mesmo os desejo várias vezes por ano), votos de felicidade. Mas me sinto confuso nesses tempos. Muito confuso. E eu fico me perguntando se não era melhor eu ter estancado lá atrás, sem toda essa coisa abstrata que a gente chama de responsabilidade. Passo vários períodos longe de casa, daqui a pouco estarei longe de vez. Será que sete não são melhores que dezessete? Não sei. Não que uma data seja má na essência. É que ela chega acompanhada de dúvidas. E eu percebo que há alguma coisa diferente. Uma, duas, várias. Por quê? Sim, eu fico feliz também, é legal ver gente ao seu redor, cantando só para você durante um ou dois minutos. Um bolo para cortar e velas para assoprar são igualmente divertidos. Recados, mensagens também fazem com que nos sintamos, pelo menos em 1/365 do ano, queridos. Inquieta e pulsante, contudo, a melancolia dança no meu interior. Ah, lágrimas ditosas, fruto de miscelânea de emoções! Lágrimas que brotam neste dia em especial, e eu não consigo contê-las. Já posso sentir os cheiros festivos, ovos, farinha, coca-cola. E o odor mais pungente de todos – o da incerteza. Ontem dezesseis, hoje tem mais um. Feliz aniversário, Douglas Thaynã.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Telégrafo

A vida é um infinito pedido de ajuda. E ele precisava de alguém que pusesse as mãos sobre as dele, que o acompanhasse nos seus devaneios tão reais. Alguém que trouxesse um punhado de poesia à prosa sua de cada dia. De fato, era tudo um constante "socorro!", ele via que acabaria sucumbindo. Imaginava-se todo em verso, lírico, com muita rima rica a embelezar-lhe a existência. Era, contudo, um monólogo triste, nenhuma figura, nada de belo. Ouvia as gotas na janela e gotejava também, imerso no pesado caos costumeiro. Precisava de alguém, urgentemente. Levianamente. Agonizantemente. E, agonizantemente, seguia no seu S.O.S. cotidiano. S... O... S...

domingo, 9 de janeiro de 2011

Era a primeira vez que matava um frango. Segurava a ave pelos pés e a outra mão circundava o pescoço (como seu pai lhe instruíra), estava prestes a começar. Mas sentia-se incapaz. Já matara outros bichos, bichos pequenos, baratas, aranhas, lagartixas. Mas eles pareciam insignificantes demais para se relutar em matá-los. Com o frango era diferente. Eram três quilos de peito, coxas, penas e canto. Não dava para matar algo tão grande. Só que teria de dar. Fechou os olhos e puxou a cabeça. O animal começou a se contorcer, batendo e batendo e batendo as asas, tentativa iníqua de escapar da morte. Ele apertou ainda mais as pálpebras e seguiu puxando. A cada vértebra que estalava, sentia-se pior. E o frango batia as asas, era pena por todo lado. Por fim, o trabalho foi feito. Cessaram os movimentos e um pouco de sangue escorreu pelo bico amarelo. Ele abriu a vista e contemplou o resultado daqueles minutos infinitos. Levou-o para dentro, a mãe cozinhava. Mais tarde, comeu o risoto com gosto, saboreando cada fibra da carne branca e macia de um frango qualquer.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Janeiro

Janeiro calor
Quente e perdido
Perdido em tremor
Janeiro libido

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Réveillon

Passaria o réveillon em casa, com as luzes apagadas. Comemorar o quê? Não gostava dessa coqueluche de ano-novo. Promessas de ano-novo, a ladainha redundante de emagrecer, pagar as dívidas, ser mais paciente e tudo mais. Foda-se que é o último dia da década, pensava. Ficaria deitado na cama quente, ouvindo qualquer coisa que não remetesse à festividade, com os fones estourando em altura.

...

Podia ver as pessoas loucas pelos doze grãos de uva, pelas sete sementes de romã na carteira, engolindo apressadas um prato inteiro de lentilhas à meia-noite. Lembrou que ele próprio já fizera toda essa baboseira de ritual. Inclusive, na última passagem, vestira uma cueca vermelha. Amor. Mas outro janeiro batia à porta e nada de amor em sua vida. Se ao menos fosse... Não.

...

Era triste no fim de dezembro. Não sabia lidar com a profusão de sentimentos dentro de si. Não era culpa sua, propriamente, mas seu ano nunca era como os dos outros. A grama do vizinho... Não que ele quisesse ser tão melancólico e pessimista; apenas era. Detestava passagens. Estava decidido: receberia o onze com escuridão, essa escuridão que lhe era tão familiar.