Noite quente na cidade. O ônibus amarelo com destino ao bairro do Uberaba sacolejava, roncando. E eu com os fones de ouvido metido nas orelhas, escutando Jet, are you gonna be my girl. Até que se sentou ao meu lado. Cabelos, óculos, mochila, unhas e o “Daddy’s girl” tatuado no braço – todos pretos, como o céu mormacento que fazia lá fora. Tinha cara de Letícia. A blusa multicolorida que ela mesma enfeitou, com uma estampa psicodélica e um decote recortado em casa, que deixava entrever as alças do sutiã, também preto. Abriu uma edição meio velha d’A Convidada, de Simone de Beauvoir, cujas páginas eram marcadas com uma fotografia desbotada de quando ela era criança. Senti o cheiro bom e desconhecido que emanava dela e das palavras, e foi aí que reparei que ela fazia letras na federal (finalmente a greve terminara) e tinha uma aliança prateada no dedo anular da mão direita. – Você pode abrir a janela mais um pouco, por favor? Claro que eu podia. Tristemente, eu podia. Abri a janela, no que ela deu uma folheada no livro. Na primeira página, “Renata, 2005”. Ela não era Letícia. E eu desci no ponto seguinte, pedindo licença para passar e vislumbrando a fênix desenhada em suas costas. Is she gonna be my girl? Não.
domingo, 7 de outubro de 2012
terça-feira, 3 de julho de 2012
sábado, 12 de maio de 2012
07/05/12
Dilacerar. Uma discussão no andar de baixo como pano de fundo, queria dilacerar. Partir a palavra ao meio, chegar ao âmago do âmago de algum significado. Sentir falta de coisas desimportantes, inexistentes, barulho de mar em concha perolada. Ninguém lá fora, apenas os cones iluminados dos postes solitários. Dentro de casa, contraste, a falta de luz, o escuro desejado, deliberado. O escuro feito escuro por vontade. Uma ânsia de vomitar tristeza e decepção que lhe subia à boca mas era constantemente empurrada de volta. Álcool. Amor. Todas essas coisas que são na verdade incompreensíveis e a gente não pode ter mais que uma mera ideia do que elas representam. Pão e vinho, corpo e sangue. Suor. Música nos ouvidos, nostálgica, colorindo lembranças e trazendo à tona a pluralidade de tudo. Loucura e lucidez, qual é o limite? Existe um? O fruto proibido não é a maçã, é a consciência. Mentiras. Estações do ano, que se alternam num festival de frio e calor e folhas caindo e flores nascendo. Tudo é mágica e nada é de verdade. O que agoniza ainda é vivo, não morre se se lhe resta um mínimo de força. Agonizante, porém ainda não morto, queria dilacerar. A si mesmo. O mundo. Dilacerar o que lhe havia de nobre.
Cresci muito com ele - e com vocês.
Infelizmente, porém, estou dispondo de bem menos tempo
do que eu tinha para compartilhar minhas palavras tortas.
Mas ainda estamos vivos!
Porque, como está ali em cima, "o que agoniza ainda é vivo".
E ainda resta a força. A vontade.
Então, mesmo com frequência diminuída,
com textos muito mais ocasionais,
estarei aqui ainda.
E, hoje, só me resta uma coisa a fazer:
agradecer.
Pelo aniversário do Sangue e Solidão
e por vocês estarem sempre aqui.
sexta-feira, 6 de abril de 2012
O frio volta. Com ele, toda a balbúrdia necessária de sentimentos - eu precisava disso. É realmente estranho o papel de novo à minha frente depois de tanto tempo. Parece que tenho de me apresentar, dizer quem sou, em vez de simplesmente escrever. Fato é que não tenho boas histórias pra contar, nem estórias. Ou coisa que as valha. Como se eu fosse um tipo de irmã chata da Alice, de uma hora para outra preso aos livros sem gravura, sem me permitir uma xícara de chá sequer, uma única partida de críquete. O que eu queria mesmo era cair - não, pular - para sempre na toca do coelho, mas não tenho coragem. A única coisa de que sou capaz é ficar sentindo o vento gelado me bater no rosto e pensar. Em tudo. Em nada. Nessa constante e imutável nostalcolia que me é tão conhecida. Gostaria de ter algo. Mas, para se ter algo, é preciso mais que vontade. É preciso entrega, é preciso dom, é preciso ousadia. Quem me dera. Minha entrega é à minha cama, o dom é o de procrastinar e a ousadia é, desde sempre... Não. Não há nada de ousadia.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
Quintal
pés que tomam banho n’água do céu
e mãos que lhes desnudam
frutas, frutos, furtos furtivos
frutas, frutos, furtos furtivos
saboreando o agridoce
com o cheiro de infância
e a roupa toda suja
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
Momento
H O R A
S E N H O R A
M E L H O R A
C H O R A
A G O R A
Á G O R A
G O R A R
O R A R
R A R O
C L A R O
L A R
B A R
A R
A R
A R
S E N H O R A
M E L H O R A
C H O R A
A G O R A
Á G O R A
G O R A R
O R A R
R A R O
C L A R O
L A R
B A R
A R
A R
A R
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
Vazio
É isso, simples assim. Voltando às origens, ao ponto em que tudo começou. Inexplicável, repentino, arrebatador. Vazio. Luta eterna entre opostos, entre estados momentâneos de espírito. Polos. Vermelhidão. Música. Sempre pensamos que nunca é duradouro, principalmente quando é conosco. Contigo, convosco, comigo. Inimigo. Um peso nos olhos que há tempos não aparecia – e que não era para estar aqui, agora. O que deu errado? Aliás, alguma coisa deu certo? Retornar. Vontade de areia firme, onde as ondas – e que ondas! – não podem alcançar. É contraditório. Se teremos de correr, de atingir qualquer coisa predeterminada, como fazer? Eu não sei. Mais que apenas dizer, é preciso saber como proceder. Mas eu não sei, desculpe, a quem quer que seja. Dificuldade. Essa coisa de camadas, múltiplas camadas... Dor-de-cabeça. Olhar a lua gigante decalcada no grande lençol negro, pedindo-lhe uma solução, que no fim das contas não soluciona nada. Nada resolve. Vazio.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Anual
Happy birthday to you...
Tanta coisa já me propus a escrever, antecipadamente... E tantas vezes as palavras me faltaram, como numa espécie de sortilégio em que elas criam vontade própria e decidem não aparecer. Penso há muito sobre o que eu diria hoje, dezessete de janeiro de dois mil e doze. Um dia normal, ou não. Minha cabeça viaja à procura de algo que não seja repetitivo, mas aniversários sempre o são, em todos os sentidos.
***
Não, nada de diferente ocorreu quando o relógio mostrou meia-noite, com seus números fosforescentes piscando vermelhos lá dentro dos meus olhos. Tudo era igual, mas nunca tinha estado tão estranho. É claro que eu tinha a consciência de que quando a segunda desse lugar à terça, meu corpo, meus gostos e tudo o mais permaneceriam os mesmos - afinal, ninguém está verde num dia e no outro se apresenta pronto para colher. Mas o significado simbólico do avanço no calendário faz com que a gente pense que, sim, as coisas mudaram.
***
Um, dois, três, dezoito. Estou feliz. Porém, mais do que felicidade, o que está à minha frente é um gigantesco ponto de interrogação, que se insinua do alto de sua gravidade, olhando-me nos olhos e perguntando e agora?. E agora? Será que, a partir de hoje, serei uma pessoa diferente por ser legalmente responsável pelos meus atos? Se metamorfoses acontecem na vida, não acontecem tão de repente. Veja só, não sou muito distante do que eu era há dez verões (não gosto muito de primaveras). Quem sabe a gente não "mude" de fato, mas sim "troque de roupa" no decorrer dos tempos. E todos sabemos como é ruim trajar o mesmo todos os dias. Enfim. Talvez a vida seja exatamente isso: um grande guarda-roupas. Hoje visto mais uma. Feliz aniversário.
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
A Pedra
a pedra estava
no meio do caminho uma pedra
caminho do qual a gente desviava
por causa da pedra
obstáculo
mas a menina foi lá
e limpou a poeira da pedra
e viu que não era pedra
era um diamante
no meio do caminho uma pedra
caminho do qual a gente desviava
por causa da pedra
obstáculo
mas a menina foi lá
e limpou a poeira da pedra
e viu que não era pedra
era um diamante
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Pulgas e Percevejos
Tudo nesta casa está tomado. Eu estou. E não adianta jogar inseticida pelos cantos, pelas paredes, pela memória. A luz alaranjada da lâmpada incandescente me entra nos olhos rascante, clareando os recessos mais escondidos - que, desde Freud, tento esconder até a eternidade. Há vários deles, bichos que vêm se arrastando, ou voando céleres, e corroem móveis e almas. Deixando rastros de lembranças, páginas velhas que alimentaram traças. Não se pode lê-las, nunca mais.
Festa perdida e intrépida, infame, repleta do açúcar que atrai infinitas formigas, fá-las tremularem as antenas, reunindo a multidão de Meca ao fim de mais um Ramadã. E eu, no jejum de sentimento, a refestelar-me glicídico, ainda que salte à vista, clara e tátil, a certeza do erro. Haveria modo de digerir esse doce, ou mesmo me digerir, para por fim nas ferroadas? É impossível dormir, com todo o corpo a explodir em feridas que se exibem destituídas de qualquer vestígio de pudor. Putas feridas.
Combinação perigosa. Pulga e percevejo, barata e gafanhoto, besouro e escaravelho. Um sarau estrondoso a ecoar onde quer que eu esteja, misto de serenata e militância - protesto trovador consumindo o que me resta de lucidez. Caço-os, procuro-os, imerso no amarelo luminoso, feito de raios e consciência; pífia tentativa. Faço-me rocambole na cama, suicídio lento e derretido que se junta às picadas e mordidas dos insetos da mente.
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