Tenho dentro de mim
um campo de batalha
onde mil exércitos lutam, fiéis
cada qual a um diferente eu
Eu morro e eu mesmo triunfo
Eu canto vitórias e jazo ferido no chão
Eu sirvo a quem me vence, sirvo a mim
E, no final, ganho e perco a guerra eterna
Todas as espadas, no entanto, convergem
quando se trata da vitória maior
e cada gota do sangue derramado
se transforma em uma palavra.
quinta-feira, 17 de julho de 2014
quarta-feira, 28 de maio de 2014
Lugar algum
para ler (e concebido) ao som de Agoraphobia
Domingo. Ele
acorda pela terceira vez e finalmente consegue se sentar na cama. Passa as mãos
pelo rosto coberto com a barba que devia ter feito há muito tempo. Mais um
dia. Levanta-se. Titubeia por um momento, mas, resignado, dirige-se ao banheiro.
Olha para o rosto assimétrico que se mostra no espelho e tem pena de si mesmo,
ainda que tente evitar este sentimento ao máximo. Mija. Dá a descarga e lava as
mãos. Volta para o calor da cama. O relógio na mesinha mostra que já passou do
meio-dia. Ele ouve um barulho e percebe que é o próprio estômago denunciando
que não recebe alimento há mais horas do que seria aceitável. Não há nada em casa. Preciso comprar
comida, pensa.
Duas horas da
tarde. Ele ainda não comeu. Na verdade, está enrolado em três cobertores,
agradecendo o fato de ter colocado blecaute no quarto. O escuro é confortável. Ou,
mais precisamente, menos desconfortável. Sente a barriga roncar de novo e
põe-se mais uma vez sentado. Veste a primeira calça que vê jogada no chão sujo.
Uma pequena mancha branca, provavelmente resto acidental da última masturbação.
Ele não liga. Pega um par de sapatos. Calça-os. Está pronto para sair, mas algo
não permite. Experimenta outro par. Não. Tenta mais uma vez e mais uma e mais
uma. Treze, ao todo. Mas nenhum deles o faz querer sair de casa.
Meia hora
depois. Em pé, tremendo, afasta levemente as cortinas da janela do quarto. A luz
que lhe invade os olhos é asfixiante e dolorosa. Assim que consegue abrir os
olhos, percorre a rua lá embaixo. Mora num apartamento alto. Vê algumas pessoas
caminhando, diminutas, no amplo espaço das calçadas. Pergunta-se como as
pessoas conseguem. Queria ser como elas. Simplesmente sair por aí. Para comprar
comida, para ir à farmácia, para tão somente sair. Mas algo o impede. Assim como
a luz, esse algo lhe rouba o ar. E lhe desinquieta o peito. E lhe sacode as
mãos. Por isso, ele fecha as cortinas. E
se enclausura novamente no macio abrigo de lã.
Ainda na cama.
Ele sabe que isso não é bom. Sabe que não é saudável. E sabe que tem grandes
problemas, ainda que não precise procurar um médico. Ou estar internado. Ou será
que tudo não passa de uma frivolidade qualquer e não existe problema algum? Apenas
um déficit de coragem. Nem ele sabe. Ele quer apenas ser. Mas o que é ser? E quem
ele seria? Alguém que não consegue dar uns poucos passos fora do imaculado e
abençoado lugar ao qual chama de lar? Seria isso que o definiria? Um medo
inclemente, um medo invasivo, um medo parasita que lhe tolhe os pensamentos e o
impede de estar em qualquer lugar aberto. Agorafobia. Ou não. Não poderia ser apenas
uma falta de ar?
Levanta-se
outra vez. Olha em redor. Uns móveis baratos, nada de luxo. Ele tem
necessidades tão simples; ainda que tivesse todo o dinheiro, não compraria nada
além do corriqueiro. Quem sabe umas revistas com a programação da tevê. Uns grãos
de café, para que pudesse moer na hora do preparo – uma das poucas coisas que
realmente apreciava. Esse tipo de ordinariedade. Consegue enfim chegar à porta.
Fracamente, abre-a. Dá um passo hesitante para fora do santuário. É aí que,de
uma forma enlouquecedoramente redundante, não consegue. Bate a porta. Gira a
chave. Ele não quer ir a lugar algum.
segunda-feira, 5 de maio de 2014
Perguntas
A gente sempre tenta encontrar
explicações praquelas coisas inefáveis, como se a falta de definição asfixiasse
que nem a cabeça enfiada numa sacola. É uma falta de ar. Nessas noites sem sono
de garoa fina a gente fica lá, olhando as gotinhas pequenas caírem sem rumo e
pensando no porquê de tudo. Sentindo saudade de nada. Buscando entender um
mínimo do que se vê e ouve e sente, para ter um minúsculo pontinho fixo no meio
desse caleidoscópio que é a vida, e que quando a gente acha que decifrou a
imagem balança e todas as cores e formas se misturam de novo e de repente. E é
em outras bocas, novos chãos, mais das mesmas garrafas que a gente procura,
ainda que afinal, afinal, afinal, a resposta-entre-aspas esteja dentro da gente. Ou é
o que a gente espera. No fim do fim do fundo, do mundo, o que a gente quer é saber quem
é.
quarta-feira, 5 de março de 2014
Cinzas
soneto de fim de carnaval
Chora Pierrot a ida de Colombina
Lágrima viva, que o rosto ilumina
E desliza devido à mulher amada
Arlequim intruso fez-se mostrar
À bela dama, que com ele partiu
O palhaço, com seu coração pueril
Não vê o visível, mas que azar!
É preto-e-branco solitário
Numa linda noite de tristeza
O que era éden virou calvário
A velha chama, outrora acesa
Jaz apagada no santuário
- Pierrot nunca fora fortaleza
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
Classificados
Procura-se inspiração
De primeira qualidade
Ainda sem uso
Ampla e arejada
Fogosa e espevitada
Sem riscos ou amassados
Que traga palavras em três dias
Pela metade do preço
Ou com opção de troca
Por uma frase de autoajuda
sábado, 23 de novembro de 2013
Untitled
I still keep wondering
If I’ll
ever get to be as happy
As
everybody seems to be
I’ve got no
one here with me
To make it
through this tough life
I look
around: I’m all alone
Even though
I have my friends
But they've, sure, fallen in love
They’re in
the sky, nothing above
And I still
walk all by myself
I go to
bars and go to clubs
I try to
hide my unhappiness
But it’s so
much stronger than me
It makes me
freak and want to flee
And bury
myself for the longest time
sábado, 2 de novembro de 2013
Uísque
repostagem
Te amo como amo um copo de uísque
gelado ao toque, ao tato
Mas você o bebe e ele te esquenta
E o calor vai atravessando, célula por célula
Te amo como amo um copo de uísque
No desespero eu procuro – te procuro
e quero imergir-me no líquido
Fazer de conta que não houve um dia ruim
Te amo como amo um copo de uísque
te amo
como amo
um copo
de uísque
Te amo como amo um copo de uísque
Só que, nesse momento, eu preciso mesmo
é de uma cerveja
Te amo como amo um copo de uísque
gelado ao toque, ao tato
Mas você o bebe e ele te esquenta
E o calor vai atravessando, célula por célula
Te amo como amo um copo de uísque
No desespero eu procuro – te procuro
e quero imergir-me no líquido
Fazer de conta que não houve um dia ruim
Te amo como amo um copo de uísque
te amo
como amo
um copo
de uísque
Te amo como amo um copo de uísque
Só que, nesse momento, eu preciso mesmo
é de uma cerveja
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
Profissões #2
O cobrador se apaixonou. As catracas que lhe guardavam o coração abriram-se para sempre. Finalmente achara a moça com passe livre vitalício para sua vida.
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
domingo, 20 de outubro de 2013
Pela primeira vez eu gostei mais de dias de sol que dos encobertos. Pela primeira vez minha autoestima, que vivia enterrada, conseguiu emergir à superfície e me fazer achar que, sim, eu poderia ter o que os outros têm. Pela primeira vez abri mente e peito; abri a mim mesmo numa mistura de descoberta, de felicidade, de alívio. Mas como eu já devia desconfiar, tudo foi muito efêmero. Por causa de algumas poucas palavras, pensamentos que eu tinha conseguido afastar voltam como estouro de boiada e novamente a autoestima vai para o chão. Aí eu penso na falta que as nuvens fazem e como eu pude imaginar que me daria bem com calor e a claridade. Sempre fui amigo do cinza. Era-me confortável. E, agora, desejo mexer no ciclo das estações e reverter a meteorologia. Mas não. Como uma piada sádica do universo, tudo isto ocorre no primeiro dia do horário de verão. Para que o sol venha e me torture por uma hora mais.
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