terça-feira, 17 de agosto de 2010

Surto

Há monstros em minha cabeça. Eles tentam fugir a todo momento e, para tanto, aproveitam-se das minhas fraquezas. Eles gritam, correm, querem que eu enlouqueça. Dão-me ordens, ordens indecorosas, mas não as posso recusar. O barulho aqui dentro alcança impensáveis decibéis que dizem ser imaginários. Não são. Eu os ouço, isso dói. Acham que é mentira, zombam de mim, enquanto os monstros fazem a festa, mandando fazer coisas horríveis. Não fui eu quem quebrou aquele pescoço. Não fui eu quem segurou o cabo daquela faca. Não fui eu quem apertou aquele gatilho. Foram eles, foram os monstros. Eles não me deixam em paz. Sinto dor, dor, o ruído é insuportável. Estou molhado, tremendo, meus olhos ardem. Peço aos monstros que parem, não aguento mais. Mas eles não param. Eles gritam, "mate, mate, mate!". Tenho de obedecê-los, ainda que a contragosto. Minha cabeça não é minha. Os montros a dominaram. De repente, uma parede se materializa de encontro a meu rosto. Mais dor. Um pequeno riacho rubro macula a imensidão branca. Eu odeio o branco. O branco machuca meus olhos. A parede luta com minhas mãos, com meu tronco, minhas pernas. Os gritos dos monstros chegam à minha boca e escapam. Não é a minha voz. Parem, parem, parem! Sinto mãos fortes segurarem meu corpo, que não é meu. A visão desfocada, reconheço um brilho metálico. Os monstros não param, continuo a gritar. Algo estranho cai em minha corrente sanguínea. Dói muito; pelo menos agora os monstros calaram. Um calor gostoso invade o corpo que peguei de volta. Os monstros foram embora, caio pesadamente no chão. E o breu toma conta de tudo, pondo fim à minha tortura.

5 comentários:

  1. Nossa, bem macabro e muito bem feito..
    Parabéns, adorei :*

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  2. Adorei mesmo, muito bem feito, ótimo texto! Um tanto quanto esquizofrênico, não? rs. Parabéns!

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  3. Muitíssimo obrigado! Fico imensamente feliz que tenham gostado! XD

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