sábado, 4 de dezembro de 2010

Vício

Dona Inês havia dito para o filho parar, onde se viu tomar tanto café assim, ia fazer mal. Na verdade, ela achava que já estava fazendo. Vitor não era mais aquele rapaz e, nos últimos tempos, estava inalcançável; quando alguém lhe falava, era arredio.

A mãe punha a bebida em condição de origem do transtorno do filho. Proibiu-o indeterminadamente de apreciar o singular líquido negro. Ele explodiu. Puta e vaca foram termos muita vez utilizados. A senhora ouvia-o, em pranto, e lhe pedia que se acalmasse, que tudo bem, o deixaria tomar café de vez em quando. Vitor não dava a mínima, atordoado que estava. Possuído, assim sua mãe descreveria ao esposo o estado do filho.

Vitor quase bateu na progenitora, "você não sabe de nada!". Impediram-no a ponto de fazê-lo. O pai barrara-lhe o gesto e a coisa agora era entre os homens. Dona Inês foi em choque para o quarto atirar-se na cama e esvaziar-se toda em choro. Dali a pouco, apagou.

Abrindo as pálpebras, viu o marido a afagar-lhe os cabelos. "Ele foi embora". Ela descerrou os lábios, mas não pôde dizer coisa alguma. "É melhor pra todo mundo", repetia seu Joaquim, tentando acreditar na própria voz.

Dona Inês era dura consigo, "a culpa é minha", o que tinha demais no fato de o filho ter uma inclinação para o consumo excessivo do café? Só que, perdido lá no meio do emaranhado de pensamentos, ela sabia que estava certa, vira na tevê um médico falando que café demais podia causar problemas psíquicos. E ela não podia deixar o filho enveredar por essa senda. Cada dia mais magro, sangue na vista, olheiras escavadas - olhos de defunto, dissera a vizinha -, ele não conseguia não entornar uma garrafa completa por dia. No mínimo. E sempre trancado no quarto. Mas a proibição fora um revés. "Para onde ele foi?", perguntou, chorosa. "Não sei, querida", proferiu o marido, torcendo para ela crer.

Passou tempo, e ninguém na casa se atrevia a pronunciar qualquer vocábulo que remetesse aos acontecimentos. Dona Inês passava os dias vertendo lágrimas, em súplica silenciosa, "onde está meu filho, onde está meu filho?". Ela logo teria a reposta tão desejada. Meio mês mais tarde, o casal recebeu a notícia de que um corpo havia sido encontrado nas imediações da igreja de São José. Estava, agora, no IML. O único documento que havia delatava a filiação do cadáver. Foram reconhecer. À retirada do lençol, dona Inês cambaleou. O nariz do morto estava preto, com as veiazinhas rompidas e podres. "Crack", informou o legista. "Há bastante tempo". O marido tentava consolá-la, "fui injusta! é minha culpa! não era o café!"; e, ao mesmo tempo, conter seu próprio desespero. Ficaram aprisionados nos fatos, desnorteados. Até que os retiraram para uma sala contígua.

Após os trâmites e a óbvia confirmação de que o rapaz era de fato Vitor, uma funcionária chegou com um sorriso polido e pesaroso e uma bandeja nas mãos. Desprendia-se um vapor dançarino que rodopiava no ar. "Eu sinto muito. Os senhores aceitam um café?", perguntou educadamente. E, a não ser seu Joaquim, ninguém entendeu o motivo de Dona Inês súbito gritar um "não" desumano e cair inerte no piso azulejado, imaculadamente limpo.

5 comentários:

  1. nossa, é tem que tomar cuidado com o café!!rsrs e eu principalmente, já to começando a ficar viciada que nem Vitor!!
    se quiser, acesse meu blog de arte obscura http://artegrotesca.blogspot.com

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  2. sensacional é pouco pra esse texto.
    ao final dele, me arrepiei até a nuca.

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  3. Porra, sem palavras. Ficou muito bom e que final surpreendente. Quando comecei a ler e antes de chegar ao fim pensei: "Nossa, se não tivesse aparecido o café eu diria que era o crack" e olha só no que deu.
    Parabéns mesmo.

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  4. Muitíssimo obrigado pelos comentários! Obrigado mesmo!

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