domingo, 9 de janeiro de 2011

Era a primeira vez que matava um frango. Segurava a ave pelos pés e a outra mão circundava o pescoço (como seu pai lhe instruíra), estava prestes a começar. Mas sentia-se incapaz. Já matara outros bichos, bichos pequenos, baratas, aranhas, lagartixas. Mas eles pareciam insignificantes demais para se relutar em matá-los. Com o frango era diferente. Eram três quilos de peito, coxas, penas e canto. Não dava para matar algo tão grande. Só que teria de dar. Fechou os olhos e puxou a cabeça. O animal começou a se contorcer, batendo e batendo e batendo as asas, tentativa iníqua de escapar da morte. Ele apertou ainda mais as pálpebras e seguiu puxando. A cada vértebra que estalava, sentia-se pior. E o frango batia as asas, era pena por todo lado. Por fim, o trabalho foi feito. Cessaram os movimentos e um pouco de sangue escorreu pelo bico amarelo. Ele abriu a vista e contemplou o resultado daqueles minutos infinitos. Levou-o para dentro, a mãe cozinhava. Mais tarde, comeu o risoto com gosto, saboreando cada fibra da carne branca e macia de um frango qualquer.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Janeiro

Janeiro calor
Quente e perdido
Perdido em tremor
Janeiro libido

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Réveillon

Passaria o réveillon em casa, com as luzes apagadas. Comemorar o quê? Não gostava dessa coqueluche de ano-novo. Promessas de ano-novo, a ladainha redundante de emagrecer, pagar as dívidas, ser mais paciente e tudo mais. Foda-se que é o último dia da década, pensava. Ficaria deitado na cama quente, ouvindo qualquer coisa que não remetesse à festividade, com os fones estourando em altura.

...

Podia ver as pessoas loucas pelos doze grãos de uva, pelas sete sementes de romã na carteira, engolindo apressadas um prato inteiro de lentilhas à meia-noite. Lembrou que ele próprio já fizera toda essa baboseira de ritual. Inclusive, na última passagem, vestira uma cueca vermelha. Amor. Mas outro janeiro batia à porta e nada de amor em sua vida. Se ao menos fosse... Não.

...

Era triste no fim de dezembro. Não sabia lidar com a profusão de sentimentos dentro de si. Não era culpa sua, propriamente, mas seu ano nunca era como os dos outros. A grama do vizinho... Não que ele quisesse ser tão melancólico e pessimista; apenas era. Detestava passagens. Estava decidido: receberia o onze com escuridão, essa escuridão que lhe era tão familiar.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Qualquer data cabe.
Para quem quiser,

Sinto uma vontade tão grande, tão enorme, tão visceral. Eu preciso me entregar a alguma coisa que me leve completamente, que sugue minhas lágrimas de alguma forma, por Deus, definitiva. Quero me lançar em algum rumo que não tenha rumo, poder desfrutar meus vícios à vontade, sem ninguém que venha me levantar. Porque eu quero ficar caído. No chão. Entende? Cansei dessa babaquice de ser a pessoa perfeita, educada e cordata de quem todo mundo gosta. Eu quero é me afogar em mares de álcool, em chaminés de cigarro, em céus e em lábios – os de cima e os de baixo. Preciso ser, droga, ter a possibilidade de usar minha barba no comprimento que eu quiser, deixar a tampa do vaso levantada. Ninguém tem noção de como me encanta toda essa marginalidade. Essa marginalidade. Com o câncer e a cirrose eu me entendo depois, não preciso de gente cacarejando nos meus ouvidos. É isso que eu procuro. É isso que desejo. Eu tenho de ficar lá, rastejando, com bafo de cerveja e de tabaco. Por favor, não quero mais essa merda de vida. Merda. Vida.

Sem mais.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Criação

"Gastei uma hora pensando um verso /
que a pena não quer escrever." (Drummond)

Palavras, onde vocês estão? Era o que ele pensava, enquanto girava o lápis nos dedos e as gotas de suor brotavam-lhe aos montes na testa. Riu-se. Lembrou os versos de Drummond; escreva, pena, escreva! Sabia que qualquer coisa que rabiscasse no branco do papel somaria à tonelada de bolinhas no cesto. Merda! Acendeu um cigarro e fechou os olhos, pensando em tanta coisa boa que via por aí. Por que não conseguia fazer igual? Os outros eram tão bons, por quê? Tinha noção de que às vezes era prosaico demais. Comum demais. Mas será que não iria conseguir fazer alguma coisa que prestasse, nem que fosse só uma? Acendeu o segundo e apertou forte o lápis. Agora sairia. Aproximou o grafite da folha, mas deteve-se. Não dava. Tentou novamente, estancou. Terceiro cigarro. Foda-se, disse em silêncio. Desenhou um coração e deixou para escrever mais tarde.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Camboriú

O cheiro úmido e salgado atingia-me as narinas, e eu lembrava outros tempos, tempos fugidos que eu não poderia alcançar novamente. As ondas quebrando em muita espuma, verde branco verde branco. Areia quente. Então a vi. Um rabo-de-cavalo displicente a lhe cair pelas costas, sobre o roxo bem roxo da saída de praia. Belíssimas pernas, pernas estonteantes, que seguiam até findarem em ternos pés, cujas unhas eram pintadas de azul. Não, não consigo descrever a profusão de sentimentos pela qual fui tomado. Por Deus, era linda demais! E eu cá, a uns quinze metros, reles mortal metido numa bermuda e todo molhado de mar. Contemplei-a um instante mais, até que ela volveu o rosto à minha direção. Sorriu. Retribuí, exibindo meus dentes não tão brancos como os dela. Súbito, uma prancha passou por mim. Finalmente vi os braços do surfista envolverem a minha miragem. As duas bocas se encontraram. E eu, sentindo-me triste e tolo ao mesmo tempo, tive de me contentar com a visão do papai noel de dez metros de altura, que adornava, grave e vermelho, o calçadão da Avenida Atlântica.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Terminal

E de repente aquela menina me pareceu tão triste! No alto do seu metro e dez, balançando a mãozinha numa despedida silenciosa, os olhos caídos e sem brilho. De dentro da blusa azul-turquesa, ela dava adeus. Mirou o ônibus uma vez mais, e através do vidro viu outro par de mãos a acenar. Não devia ter mais de seis anos, mas dava a impressão de ter vivido sessenta de desencontros. Como pode, pensei, tão nova e já sofrendo tal golpe? O avô puxou-lhe a manga, vamos minha filha. E ela foi. Deu as costas para o coletivo e avançou tremendo. Tão triste... Ela me lembrou você.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Qualquer Lugar, 14 de dezembro de 1990.

Mijei sentado esta manhã. Foda-se o que vão pensar. Mijei sentado com um copo de cerveja, dourada como a urina que eu expelia. Fiquei lá na privada, com as lembranças vindo como formigas carregando folhas. Pensava na merda em que está chafurdada minha vida, e pensei até sair a última gota. Chacoalhei, e foi como tivesse chacoalhado a mente - desanuviou-se a cabeça e roteirei o dia. Vidro sobre mármore, na pia, manchas líquidas que me evocavam seus lábios. Não fique se martelando, eu também não sei. E tampouco faço ideia do motivo de eu estar escrevendo isto. Sabe quando você sente a necessidade? É claro, ninguém manda uma carta contando como urinou no dia em questão. Mas até que é bom você ficar sabendo. Assim, não vai poder começar o invariável discurso de como eu sou machista e aquela porra toda que você sabe que diz. É engraçado, mas depois de um tempo irrita. Enfim, é isso. Hoje eu mijei sentado.

Te amo.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Marlboro Gold

Quando a conheci, ela fumava. Pretexto, lhe pedi um. Senti aqueles olhos de vidro e de água sobre mim, e sorri - não tinha nada a perder. Ela abriu o box. - Tem fogo? Eu tinha, mas não o admiti. - Acende aqui no meu, disse-me rindo, como soubesse e quisesse. Pois soube e quis. Com a boca, aproximei o meu bastão do dela, já pela metade. Transferiu-se o calor e ambos passaram a mandar sinais de fumaça. Não me afastei; não nos afastamos. Caíram os cigarros e ficaram lá conversando, vozes plúmbeas e vaporosas. O sabor eterno do fumo, para mim, veio acompanhado de arrepios.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

No seu íntimo se escondem aqueles 
sentimentos incautos e sóbrios. 
Os ébrios, ah!, os ébrios você já me apresentou. 
Conheci-os nas horas derretidas 
em que nossas línguas duelavam 
no mesmo vão.