É aquela coisa cinza e vaporosa que cobre o céu num dia frio. Tão cinza e tão vaporosa quanto a fumaça encorpada que rodopia no ar. Uma sacada e um cobertor. Era tudo uma confusão, um jogo de luz e sombra que ninguém sabia como controlar. Mas parecia que agora ele tinha reencontrado o prumo. Ou, pelo menos, estava reecontrando. Isso era bom. Sabe, quando não há alma viva para atrapalhar e você aprecia aqueles momentos de solidão gostosa, quem sabe com um vermelho pendendo dos lábios, ardente, ou talvez uma xícara de café forte, ou ainda os dois juntos. A cabeça desanuvia e você esquece que tem problemas, que tem crises, que tem mil e uma coisas para estudar. Aí você pensa naquela música triste que te fala tanto sobre alguma coisa qualquer, e se sente envolto numa aura de nostalgia que, apesar da aparência, é tão boa. Tão boa. E sente saudade de coisas que nunca aconteceram, e olha pro céu e vê o cinza, e vê o cinza na sua frente, e imerge num mar de cinza. Um cinza quente, fluido, acolhedor. Então, você se dá conta de que está lá, na sacada, enrolado num cobertor felpudo, sentindo a brisa gelada bater no seu rosto e te lembrar que você existe. E você fica com medo de a brisa apagar o cigarro, mas no fundo sabe que a brisa só quer brincar com você. E, por fim, fica feliz, uma felicidade diferente daquelas que a gente sente às vezes, um misto de êxtase com sono, um estado de espírito sem igual. E fecha os olhos, apreciando ao máximo esse prazer.