Se a lâmpada do poste holofote fosse
Priscila seria vedete
Mas só da meia-noite às cinco
No outro dia seria manchete
Estampada em papel-jornal descartável
Rasgados, a saia e o corpete
E a pele recém-maquiada
Porque ousou sair montada
De casa, debaixo do sol
Esperava, tranquila, no ponto
A chegada da condução
E como na rua não tem holofote
Ela não foi vedete nem atração
Por ser registrada João
E ao mesmo tempo usar um decote
Calaram a voz de Priscila
E a ignorância falou mais forte
terça-feira, 27 de fevereiro de 2018
quarta-feira, 28 de setembro de 2016
Lixa
Sinto a tua falta nos mínimos
detalhes desta casa. Inclusive no rolo de papel higiênico barato que comprei
justamente porque era barato. Não é como aqueles que você comprava, folha dupla
e desenhos de coelhinhos ou carneirinhos impressos na maciez branca que até
dava mais vontade de cagar. Eu adorava isso em você, essa tua preocupação com a
sensação que teria ao se limpar. No início eu cheguei a pensar que fosse um
cuidado premeditado com a textura daquele pedaço inexplorado de pele, para
mantê-lo incólume quando eu o fosse desbravar. Mas nós nunca chegamos a esse
ponto, apesar de termos escondido uma versão de bolso do kama sutra embaixo da
pasta de documentos na terceira gaveta do criado-mudo. Ainda assim, gostava de
ver tua obstinação ao abastecermos o carrinho de compras, quando ficávamos mais
tempo na seção de higiene pessoal do que na de hortifrutis – e olha que você
era vegana.
Você dizia que é nosso dever
cuidar do corpo em toda a sua extensão, mesmo lá. Afinal de contas, o ânus era
de fato o primeiro orifício formado quando ainda não passávamos de um amontoado
de células se dividindo sem parar, e lembrava as aulas do pré-vestibular e da
faculdade, trazendo palavras difíceis como “deuterostômio” e dizendo que isso
nos deixava no topo da cadeia evolutiva, juntamente com as estrelas-do-mar. Eu
fingia recordar esses conceitos antigos, embora na realidade o maior legado do
cursinho para mim tenha sido o “puta
velha não rejeita tarado”, e achava lindamente engraçada tua avidez ferrenha em
defender coisas das quais quase ninguém fala a respeito, como a boa limpeza do
cu. E isso é o que me dá tanta saudade, esse teu jeito incomum, poder discutir
escatologias durante o jantar, falar de vômito e diarreia com a mesma
naturalidade com que conversávamos sobre a nova cor da parede da sala, a
situação política do país ou os efeitos do aquecimento global.
Quando a situação entre nós ficou
insustentável e você decidiu ir embora, eu entendi. Mesmo assim, chorei mais do
que ao ver aquele filme que veio errado dentro da capinha, queríamos uma
comédia leve para a quarta-feira e acabamos desidratados, pondo a culpa no dono
da locadora. Na tentativa de limpar o rosto, senti o toque aveludado dos
coraçõezinhos em relevo e aí sim foi que a comporta abriu e as águas seguem
rolando até hoje. Porque nas linhas demarcadas e nos picotes do papel estão as
linhas e os poros da tua mão, do teu rosto, de você por inteiro, analisando
minuciosamente as embalagens nas gôndolas do supermercado, escolhendo animais
entre todo um zoológico disponível e fazendo discursos sobre o ato de evacuar.
Mas hoje eu comprei o mais barato, que não tem bichinhos e passa como lixa ao ser usado. Que nem o teu olhar quando você bateu a porta e não voltou mais.
Mas hoje eu comprei o mais barato, que não tem bichinhos e passa como lixa ao ser usado. Que nem o teu olhar quando você bateu a porta e não voltou mais.
domingo, 29 de maio de 2016
Flying saucers in the sky
Quando eu
calço minhas botas velhas e coloco aquele casaco de couro de que você gostava e
saio andando sem rumo pelo cinza da cidade, ouvindo uma música nova cuja letra
acabei de decorar e sentindo o vento gelado atravessar cada célula do meu
corpo, eu penso em nós dois em Londres. De fato, sigo cantando com meu sotaque
britânico fajuto, sem me importar com outros pedestres que lançam olhares de
julgamento, talvez pelo fato de eu não saber cantar ou apenas pela estranheza
de se cantar no meio de uma calçada qualquer. Duas vidas baseadas em
inverossímeis planos de mudança para o Reino Unido, fotos na faixa da Abbey
Road, cervejas em minúsculos pubs irlandeses, kilts e uma volta na London Eye.
Morando num modesto apartamento alugado por duzentas libras ao mês, com janelas
cuja vista seria apenas mais e mais escadas de incêndio, mas que pela manhã
permitiriam o cheiro do bacon e dos ovos, enquanto nós desejaríamos quase
mortalmente encontrar um punhado de feijão carioquinha em algum mercado ou feira.
Mas nessa
época tudo era brilhante e colorido aos nossos olhos. Seis meses de Cultura
Inglesa, uns bicos aqui e ali pra juntar algum dinheiro, você fotografando o
submundo alternativo das noites curitibanas e eu enviando contos para a Gazeta,
o Paraná e mil revistas, imaginando publicações ininterruptas, resenhas
favoráveis e pagamento semanal. Pronto. A partir de então era só ir. Só que às
seis da manhã de domingo você batia lá em casa e dizia que, mais uma vez,
trabalhou apenas por entrada e bebida liberadas. Eu, em contrapartida, piorava
a situação ao mostrar mais um email dizendo polidamente que outro texto foi
recusado, mas que, segundo as palavras do editor, havia muito potencial em
minhas palavras e eu deveria tentar mais vezes.
Aquela fase em
que já não se é mais adolescente, porém falta a segurança da idade adulta.
Quando o fígado e as articulações ainda aguentam o tranco, mas faltam meios
para providenciar o tranco a ser aguentado. Quando a gente descobre que viver
sonhando é coisa para crianças e privilegiados, e tem que ouvir de toda a
família que o seu irmão já fez uma poupança, sua prima está se dando bem em
algum empreendimento, e que, por outro lado, eu só sei sentar com esse
computador e tentar tirar dinheiro de umas historinhas sem-graça. Quando
finalmente aceitamos essa verdade, é como se o próprio Big Ben implodisse e se
esfarelasse e esparramasse seu pó sobre o chão, misturando-se com a neblina.
Talvez tenha
sido nesse ponto que alguma coisa te disse que eu não tinha futuro. Nossas
transas eram ok, nossas conversas eram ok, nossos amigos em comum eram ok. Nada
era grandioso ou extraordinário, nada nos inflamava o peito e a mente, tudo era
simplesmente ok. A não ser quando falávamos dos dias que viveríamos do outro
lado do Atlântico. Só que os seis meses do cronograma passaram, eu não fiz o
curso de inglês e estávamos como aos dezessete anos, só que você com vinte e cinco eu com vinte e seis. Quando até nossos planos de viagem morreram, decidimos sem
falar que era o fim.
O que sei é
que nunca mais fomos parte da mesma vida. Cheguei a pensar em ir aos bares que
você fotografava, quem sabe te escrever um poema, mas decidi que tudo isso
não faria diferença. Comecei a trabalhar num escritório, secretário do
assistente do assistente do assistente. É onde estou. Não faço questão de saber seu paradeiro ou sua companhia, contanto que você não esteja tomando chá com limão
às margens do Tâmisa. De todo o mapa-múndi, peço apenas que deixe esse pedaço
para nós dois. Ou, que seja, uma lembrança do que já fomos. Quando cabines
telefônicas e ônibus vermelhos eram sinônimos de felicidade e não me faziam
chorar.
quinta-feira, 26 de maio de 2016
Sobre pavimentação urbana
é muito fácil tropeçar
nas pedras irregulares do
calçamento desta cidade
você se arrisca, meio ausente de
tudo
(da vida ao seu redor)
com seus fones fosforescentes na
última altura
acendendo cigarros despreocupados
cantarolando as palavras de músicas
quaisquer enquanto caminha
[sem prestar atenção
mas, uma vez que te veja,
quem tropeça sou eu
nos paralelepípedos pontudos
do trajeto até nós dois
sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
Astrologia
Começou o ano,
sol no meu signo. Capricórnio. Se bem que todo mundo me fala que sou muito mais
meu ascendente. Tenho a lua em Peixes. Na verdade, durante toda a minha vida
nunca soube se acredito ou não nessa parada de horóscopo. Mas se até Santo
Cristo acreditava, Macunaíma musical, quem sou eu para duvidar. De qualquer
forma, faz calor. Suor escorrendo pelas costas e os pés queimando em cima da
terra vermelha. Traz o ventilador e põe na velocidade máxima! Deus abençoe essa
terra tropical. Largado nu na cama, fumo um cigarro.
O cigarro
depois da punheta. A gente ouve tanto sobre o cigarro pós-sexo, pós-transa,
pós-foda... mas ninguém nunca falou daquelas tragadas após o orgasmo handmade,
ainda com um respingo de porra na ponta do dedo. Como se a masturbação fosse,
digamos, uma arte inferior, pintura a dedo frente à Monalisa da penetração. Daí
eu penso: qual é o fim único, o objetivo exclusivo de se bater uma? A punheta
está aí apenas para dar prazer. O sexo também dá, mas essa é apenas uma das
razões pelas quais mais e mais gente fode. Pergunte para aquele garotão de
vinte e poucos anos que faz a alegria de umas madames do Country Club em troca
de badulaques high-tech e retratos do Benjamin Franklin. Para a dona de casa
que aguenta o marido obeso, suado e bêbado chegando de qualquer lugar e lhe
metendo sem uma palavra. Términos, reconciliações, “você não consegue dormir?
Eu também não”, o orgulho em não deixar vencer a camisinha...
Tudo bem,
admito que isso é bem capricorniano. Racionalizar sobre quem ganharia uma disputa.
Sexo e punheta no ringue. E o sexo ganha por nocaute. Só para deixar bem claro,
curto transar. Curto bastante. Muito mesmo. Ou, pelo menos, costumava curtir. É
só que me veio na cabeça o ostracismo da bronha. Aquela gozada ligeira na
privada no meio do expediente, ou aquela mais calculada, longa, apreciada
durante o banho no fim de um dia de trabalho. Aquele jato glorioso e solitário,
irônico, após broxar mais uma vez no leito conjugal. A vontade de fumar é a
mesma. E o chill da nicotina também, independente de qual o jeito de atingir o
êxtase. Adoro essa palavra, êxtase. No fim, punhetar é mais um na enorme lista
dos prazeres ocultos que todos temos, aquela bomba de chocolate com morango à
qual o diabético tenta, sem sucesso, resistir.
Resistência. O
ventilador que não refresca, o cigarro que já está acabando, o resto de sêmen
que gruda nos pelinhos, essa época de promessas e metas e objetivos e resoluções.
Vai passar de que cor? Não esquece as uvas e a lentilha! Deus me livre comer
frango, tudo que cisca para trás dá azar no réveillon. Isso é superstição, é
crendice. Mas já fiz todas. Simpatia. Olha que nome mais simpático. Yo no creo
en brujas, pero que las hay, las hay. É sempre assim. Os astros dizem que esse
ano vai ser diferente. Talvez seja mesmo, consegui uma ereção. Lázaro,
levanta-te e anda. Sessenta e três anos não é fácil. When I’m sixty-four...
dizia o Paul, mas a decadência começa antes. Eu realmente acho que eu nasci no
mês errado, se é que isso funciona. Indeciso e sugestionável do jeito que sou.
Eu devia ser de Libra.
sexta-feira, 16 de outubro de 2015
Reencontro
Refestelada e
eructante, saca da caixa um palito. Observando se ambas as pontas estão
afiadas, esfrega a língua por todas as superfícies bucais alcançáveis, sentindo
as últimas notas de sabor da refeição que acaba de ter. Leva a mão direita
armada à boca, enquanto a esquerda faz de conta que é biombo, numa tentativa de
esconder os mistérios de uma cavidade oral escura e secreta. Como os demais
convivas displicentemente largados em suas cadeiras no estupor pós-prandial,
inicia o processo de escavação dentária.
Enquanto ouve risadas
misturando-se com o tilintar dos talheres sendo recolhidos e os borborigmos dos
abdomes recém-satisfeitos, fecha os olhos e introduz a ponta daquele pedaço de
madeira no espaço entre os incisivos inferiores. Fenda por fenda, dente por
dente, vai esfregando os resíduos alimentares de forma lenta e delicada,
repetida, movimentos de alavanca e vaivém que a fazem fechar os olhos e seguir
com a função, trinta e dois beijos entre pinus verde e esmalte perolado.
Tem cinquenta anos e
palita os dentes numa tarde de domingo. Cada gosto derradeiro que experimenta
antes de engolir os pequenos restos antes aderidos fá-la lembrar a feitura dos
pratos há pouco consumidos. De olhos ainda cerrados, cerra um pouco mais os
dedos ao recordar o trabalho árduo e solitário de preparar o almoço de família.
Sozinha na cozinha, sozinha nos outros cômodos da casa grande, de pé-direito
alto, com jardinete francês e piscina, sozinha em si mesma. Pensa no marido sem
vê-lo, sentado à sua frente, a redonda barriga a avolumar-se por sobre a calça,
sempre reclamando da falta de variedade do cardápio. Ri consigo mesma ao pensar
na enorme ironia. Ele, o mais monótono dos seres em suas opções de menu, vomitando
comentários sobre ausência de diversidade culinária. Sente saudades do tempero
antigo. Quando foi a última vez que sentiu verdadeiramente o gosto da pimenta?
No meio de dois molares
tem um pedaço de carne. Preso. Difícil. Dirige a ponta do instrumento para o
local, cavoucando, na ânsia sôfrega de retirar aquele naco proteico ainda não
digerido – presença minúscula, mas que grita para ser notada. Enquanto tenta
alcançar o objetivo, vislumbra o palito entrando no recesso escuro e dele
saindo, mais uma vez, e outra, e novamente, e acelera o movimento da mão
direita. Aperta as pálpebras com mais força, sentindo a extremidade aguçada
machucar-lhe a gengiva, sangrando e doendo como uma segunda primeira vez.
Esquecendo-se de onde está, começa a ofegar, remexendo os quadris na cadeira
estofada e sussurrando ais, até sentir o retorno de um amigo há muito distante.
O prazer que sente ao enfim soltar aquela partícula incrustada, que salta com a
pressão do jorro quente que acompanha o êxtase dos homens.
domingo, 28 de junho de 2015
3 a.m.
Tinha um tango tocando no rádio
Enquanto eu divagava remoendo pensamentos imbatíveis
“tienes veinticinco años”
Ou algo assim
Não sei o que faço
Embora eu não tenha vinte e cinco
E tudo parece tão aleatório
Odeio madrugadas insones
terça-feira, 12 de maio de 2015
12 de maio de 2015
Você,
Ainda estou preso em superstições bobas como desvirar o tênis caído de boca pra baixo no chão. Ou comportamentos repetidos; fechar todas as portas do armário antes de dormir, checar mais de três vezes se o alarme do celular realmente foi ajustado para as seis e meia da manhã. Você chamaria isso de transtorno obsessivo-compulsivo. Eu prefiro dizer que são caprichos dominadores. Talvez apenas por ser uma forma mais poética de dizer a mesma coisa, você sempre apontava que eu tenho um fraco pela poesia cotidiana, ainda que barata, buscar palavras mais bonitas para disfarçar feiuras, perigos e distúrbios. De fato, este sou eu.
Escutando a chuva sapateando no telhado, penso que nenhuma onomatopeia que eu escreva sairá como o seu som das gotas caindo, seus lábios fazendo aquele barulho gostoso que me dava tanto ou mais conforto que a chuva em si. Confirmo mais uma vez que todas as tomadas estão desconectadas, já é a quarta. O medo de curto-circuitos nessa tarde de temporal é a desculpa com que cubro minha fixação. Uma delas, aliás.
Você, por outro lado, sempre foi tudo menos fixada. Já que já admiti o meu pendor pelo lirismo de supermercado, permita-me usar o clichê do espírito livre. O que, mesmo clichê, é verdade. Realmente, acho que clichês são o que são justamente por esse motivo. Você era do tipo desapegada. De religiões, de comportamentos, de ideias e, especialmente, de pessoas. Achava graça nos meus costumes meio-fé-meio-mandinga, porém ficava séria quando eu novamente contava os azulejos do banheiro. Só que, ainda que a preocupação fosse genuína, seu jeito de ser sem amarras, sem fincar raízes com força no chão como eu, esse seu jeito não te permitiu continuar aqui.
De modo que não fiquei surpreso quando, na última e maior briga, você me disse que iria embora. Aliás, não sei se "briga" é a palavra certa, tendo em vista que o que ocorreu aquele dia foi menos uma discussão que um monólogo seu. Se eu quis que você ficasse? Eu quis. Mas como competir com minhas próprias falhas evidentemente patológicas escancaradas em forma de lista? Fiquei, ao mesmo tempo que triste por você ter partido, aliviado por não mais atrapalhar sua vida de grão de pólen. Desejei sinceramente - ainda desejo - que os melhores ventos te levassem para outra flor, outra casa em que você pudesse finalmente ser em plenitude.
Pelo que fiquei aqui, lavando as mãos até a pele começar a rachar e aspirando apenas o ar, depois que tudo já estava cirurgicamente asséptico. Talvez eu devesse procurar ajuda. É o que você me recomendava de forma constante. Mas acredito que não vá encontrar substituto mais irônico do que essas minhas manias arraigadas (deixe-me chamar tais hábitos de manias, há um quê de excêntrico nisso), firmemente presas a mim, quando você era a mais solta dos seres. E você sabe que eu adoro ironias.
Eu
quinta-feira, 7 de maio de 2015
História de um início de romance
Poemeto de supermercado.
Na seção
Concessão
.
.
.
Uma sessão
.
.
.
Intersecção.
Lembro-me bem deste poema, que escrevi em 2010
depois de uma passada no supermercado.
Após presenciar um encontro e um sorriso, imaginei
o que poderia vir depois
e o utilizei num exercício de concisão e brincadeira sonora.
Na falta de algo novo, posto algo bem velho nesse dia
que, para mim, é especial.
Hoje este blog faz cinco anos.
Seguimos capengando, mas ainda estamos aqui.
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
Esteticite
Belas senhoras
com suas pernas cruzadas e unhas coloridas
folheando revistas velhas
sob a luz branca e estéril
da grande sala de espera
Aguardam, pacientes
suas consultas agendadas
peelings e preenchimentos
para parar o poder do tempo
A fonte da juventude
num feixe de raio laser
Uma amiga faz piada
"Essa aí vai morrer de esteticite"
A acusada nem pestaneja e responde
que morreria sem problemas
já que encontraria Jesus
sem uma única linha de expressão
com suas pernas cruzadas e unhas coloridas
folheando revistas velhas
sob a luz branca e estéril
da grande sala de espera
Aguardam, pacientes
suas consultas agendadas
peelings e preenchimentos
para parar o poder do tempo
A fonte da juventude
num feixe de raio laser
Uma amiga faz piada
"Essa aí vai morrer de esteticite"
A acusada nem pestaneja e responde
que morreria sem problemas
já que encontraria Jesus
sem uma única linha de expressão
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