quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Percepção

Descia as escadas rolantes em êxtase, impressionado com a grandeza do lugar e com as luzes de natal. Tudo era tão... Os olhos brilhantes e as mãos ávidas por poder tocar em todo aquele fascínio. Cheiro de pipoca e farfalhar de sacolas. Virava a cabeça, apontava, sorria. Como era bonito! Por um instante se viu com um brinquedo novo, um jipe elétrico talvez. Uma bola de verdade. Ousou até ganhar um computador. Fechou as pálpebras, sorrindo. Anotou na memória a sinestesia que vivia. Quem sabe no futuro ele poderia... Tropeçou ao final da escada, o sapato ficara preso. Caiu. Chorou. Ouviu as risadas. Não, aquele mundo não era dele.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Vício

Dona Inês havia dito para o filho parar, onde se viu tomar tanto café assim, ia fazer mal. Na verdade, ela achava que já estava fazendo. Vitor não era mais aquele rapaz e, nos últimos tempos, estava inalcançável; quando alguém lhe falava, era arredio.

A mãe punha a bebida em condição de origem do transtorno do filho. Proibiu-o indeterminadamente de apreciar o singular líquido negro. Ele explodiu. Puta e vaca foram termos muita vez utilizados. A senhora ouvia-o, em pranto, e lhe pedia que se acalmasse, que tudo bem, o deixaria tomar café de vez em quando. Vitor não dava a mínima, atordoado que estava. Possuído, assim sua mãe descreveria ao esposo o estado do filho.

Vitor quase bateu na progenitora, "você não sabe de nada!". Impediram-no a ponto de fazê-lo. O pai barrara-lhe o gesto e a coisa agora era entre os homens. Dona Inês foi em choque para o quarto atirar-se na cama e esvaziar-se toda em choro. Dali a pouco, apagou.

Abrindo as pálpebras, viu o marido a afagar-lhe os cabelos. "Ele foi embora". Ela descerrou os lábios, mas não pôde dizer coisa alguma. "É melhor pra todo mundo", repetia seu Joaquim, tentando acreditar na própria voz.

Dona Inês era dura consigo, "a culpa é minha", o que tinha demais no fato de o filho ter uma inclinação para o consumo excessivo do café? Só que, perdido lá no meio do emaranhado de pensamentos, ela sabia que estava certa, vira na tevê um médico falando que café demais podia causar problemas psíquicos. E ela não podia deixar o filho enveredar por essa senda. Cada dia mais magro, sangue na vista, olheiras escavadas - olhos de defunto, dissera a vizinha -, ele não conseguia não entornar uma garrafa completa por dia. No mínimo. E sempre trancado no quarto. Mas a proibição fora um revés. "Para onde ele foi?", perguntou, chorosa. "Não sei, querida", proferiu o marido, torcendo para ela crer.

Passou tempo, e ninguém na casa se atrevia a pronunciar qualquer vocábulo que remetesse aos acontecimentos. Dona Inês passava os dias vertendo lágrimas, em súplica silenciosa, "onde está meu filho, onde está meu filho?". Ela logo teria a reposta tão desejada. Meio mês mais tarde, o casal recebeu a notícia de que um corpo havia sido encontrado nas imediações da igreja de São José. Estava, agora, no IML. O único documento que havia delatava a filiação do cadáver. Foram reconhecer. À retirada do lençol, dona Inês cambaleou. O nariz do morto estava preto, com as veiazinhas rompidas e podres. "Crack", informou o legista. "Há bastante tempo". O marido tentava consolá-la, "fui injusta! é minha culpa! não era o café!"; e, ao mesmo tempo, conter seu próprio desespero. Ficaram aprisionados nos fatos, desnorteados. Até que os retiraram para uma sala contígua.

Após os trâmites e a óbvia confirmação de que o rapaz era de fato Vitor, uma funcionária chegou com um sorriso polido e pesaroso e uma bandeja nas mãos. Desprendia-se um vapor dançarino que rodopiava no ar. "Eu sinto muito. Os senhores aceitam um café?", perguntou educadamente. E, a não ser seu Joaquim, ninguém entendeu o motivo de Dona Inês súbito gritar um "não" desumano e cair inerte no piso azulejado, imaculadamente limpo.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Semáforo

- Droga, eu falei pra procurar as chaves depois. Olha aí, tá fechado.
- Calma, amor, é rápido.
- Rápido... é porque não é você quem está dirigindo. E esse ainda é daqueles de não sei quantos tempos.
- Relaxa, bota uma música e curte o momento.
- Curtir o momento?! Com essa porra de sol na cara e, pra completar, filtro de ar mais sujo que...
- Ai, amor, você tá muito estressado. Precisa de férias.
- É claro, vai dizer isso pro meu chefe!
- Credo, Rô! Já vi que hoje não tá dando pra conversar.
- E essa merda de sinal que não avança!
- Ficar nervoso só piora as coisas. O tempo é relativo. Tudo é relativo. Newton disse isso, não foi Newton?
- Não, meu Deus, foi Einstein. Ou Bohr. Ah, sei lá! Dá pra ficar quieta?
- Escuta aqui: não pensa que pode falar assim comigo! Não pode, ouviu?
- Tá, tá, chega!
- Mas você tá um porre mesmo hoje, hein? Te contar...
- E você não cala essa boca, Jesus! Não consegue...
- Rô...
- E ainda por cima quer me interromper...
- Rodolfo...
- Fica quieta!
- Os carros, Rodolfo!
- Mas o que é que têm os carros, droga?!
- Abriu, Rodolfo.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Mordimento

Na pia, a costumeira anarquia de objetos. Imersa na água espumenta, a escova morta. Amarela, cerdas macias, ainda com resquícios do gel dental azul com sabor de menta americana. O sabonete obstruía o ralo. Meteu a mão na massa mole e escorregadia e lavou a cara. Saiu sem se secar. Ao passar pela sala, pisando no macio tapete ornado com motivos orientais, sentiu a pontada familiar de nostalgia e arrependimento. Gostaria de retroceder no tempo, fazer com que as coisas acontecessem de outro modo. Mudaria, contudo, se o calendário voltasse? Ele mesmo tinha dúvidas se não faria tudo igual. Pediu perdão em silêncio, agora enxugando o rosto com a camiseta. Dirigiu-se à janela, e as recordações não cessavam. Palavras duras, soltas quase sem querer. Brilho metálico. Lágrimas. Viu o rosto em pranto, "por quê? por quê, meu filho?". O sol se desescondeu e incidiu em cheio no rosto dele. Foi bom. Vislumbrou as bolinhas vermelhas e vinho destacadas contra o mar de verde, lá fora, e sentiu a salivação. Foi colher as acerolas. Era a fruta preferida da mãe.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Horizontais

Na cama quente
Eu e você
Entrelaçados
Eu e você
Amores loucos
Eu e você
Delírio, breu
Você e eu

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Putrefação

Sinto-me como estivesse apodrecendo. Não por fora; mas lá dentro. Corroem-me os menores problemas, e eu sei que não devia ser assim. Pode ser uma fase, pode ser eterno, pode ser tudo. Ou nada. Eu não devia ser tão mesquinho, o nome disso é mesquinhez? Ou será que minha expectativa foi tanta que a realidade não deu conta de alcançá-la? Depois, fico remoendo argumentos, na decomposição fétida e lenta que acaba comigo. Dia após dia, vejo as cores de tudo. Olhos que brilham, mas, lá no fundo...  Lá no fundo, meu interior vai ficando putrefato.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Curitiba

Elucubrações românticas de um vestibulando.

À subida das serras, eu fantasiava toda a sorte de cenários, vislumbrando ambientes surreais, oníricos, com a ansiedade percorrendo meu corpo a Mach 3. Chega logo, eu pensava. E por fim cheguei. Curitiba me recebeu altiva, numa noite tão noite que pululava de estrelas no céu e no chão, estrelas caídas. Ao descer, inundei-me com o ar frio carregado de saúde e de letras. Era ali, sim era ali que eu teria de ficar. Nas esquinas e travessas, me deparava com Paulos e Helenas e Daltons, cujos amores, histórias e poesia não tinham e não têm fim. A Botânica, o Passeio, a Ópera. Cada vez era maior a certeza de que não poderia ser outro lugar. Queria ser médico, queria ser vampiro, queria ser marginal. Contemporaneidade. Envolver-me na caçada, buscar a cidade perdida; quem sabe alguém a encontrasse. Um ligeiro sol mostrou sua figura, apenas para conferir aquele punhado exato de luminosidade à paisagem que se exibia ante meus olhos. O sol cansou e começou aquele véu de noiva de neblina fina, tão convidativo a uma sopa com queijo e uma xícara de café. Foi assim. Avaliado estive e avaliei também. E despedi-me do meu utópico objeto de lar futuro, desejoso de voltar e quedar-me ali até não sei mais quando.

sábado, 13 de novembro de 2010

Lapsos

Ela briga comigo por conta da pasta de dente destampada; do tapete revolvido; das meias e cuecas jogadas em qualquer canto; do fogão sujo de queijo; dos chinelos revirados; de eu tomar as coisas direto na jarra; da tampa da privada com um ou dois pingos de urina. Se a pego de surpresa no banho, porém, ela ignora esses meus defeitos. E, quando caímos entrelaçados na cama, ela nem mesmo coloca reparo na toalha úmida que sempre esqueço sobre o lençol.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Descoberta

- É um maço de cigarro, não tá vendo?
- Claro que é cigarro, Renata. Quero saber o que está fazendo na sua bolsa.
- Vai lá, inteligência rara: três chances pra você adivinhar.
- Não fale assim comigo. Apesar de você parecer não se lembrar, eu sou seu pai.
- Ah, não. Pode parar por aí. Não aguento mais ouvir seus sermões.
- Se você não gostasse de ouvir, não faria o que faz.
- Ah, é?! E o que é que eu faço de tão medonho?
- Minha filha, você anda por aí bebendo, com essas roupas de mulher que não tem respeito. E agora deu para fumar? Por quê?
- Ora essa, fumo porque quero. Agora vaza, me deixa em paz.
- Você não imagina o desgosto que está dando à sua mãe, que Deus a tenha. Ela não suportaria te ver fumando.
- Desgosto?! Hahaha, mamãe fumava escondida! Só você que não sabia. Aliás, foi ela quem me deu meu primeiro cigarro. Lembro bem, era um Marlboro vermelho.
- Santo Deus, isso é verdade?!
- É, pai, é verdade. Agora vai, será que você vai embaçar só por causa de um maço de cigarro?
- Sua mãe fumava... como eu não percebi?
- Ela sabia não deixar pistas. Eu tinha muito a aprender com ela.
- Ela fumava...
- Tá bom, pai. Vai digerir a informação lá embaixo. Não estou com paciência pra lamuriações sobre descobertas. Além do mais, ainda tenho vários Caribe a tragar.
- Caribe? É aquele de menta?
- É, por quê?
- Deixa eu experimentar?

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Garimpo

Concebido num providencial tempo livre.

Ele não sabia o porquê, mas quando chovia era diferente. Ouvia as gotas baterem no chão e sentia aquele cheiro tão único da água do céu que desce para lavar a terra. Não por acaso, a chuva era presença constante nos pequenos emaranhados de palavras delirantes, seus escritos. A chuva despertava coisas que não têm explicação, dizia. Pegou a garrafa e serviu-se de uma xícara de café, ao qual acrescia quase sempre uma ou duas doses de gim. Sentou-se à mesa de trabalho, com o murmúrio do choro celeste a ecoar alegremente nos ouvidos. Em suma, não havia nada de muito interessante na vida dele, a não ser a faísca de urgente lucidez quando rabiscava as ideias no papel. Era assim, normal. Gostava de quase tudo e não gostava de nada. A chuva era paixão, era tema recorrente, mesmo com a possibilidade nada remota de ser tachado (e de fato era) redundante que não tem outra coisa a lançar mão. Não se destacava dos demais; convenhamos, não se encontra por aí um diamante oculto no cascalho todo dia. De fato, ele não era diamante. Em contrapartida, era um cascalho dos bons. Daqueles que aprenderam a se deixar arredondar, melhorando sempre, pela força do tempo e da água. Água da chuva.