segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Camboriú

O cheiro úmido e salgado atingia-me as narinas, e eu lembrava outros tempos, tempos fugidos que eu não poderia alcançar novamente. As ondas quebrando em muita espuma, verde branco verde branco. Areia quente. Então a vi. Um rabo-de-cavalo displicente a lhe cair pelas costas, sobre o roxo bem roxo da saída de praia. Belíssimas pernas, pernas estonteantes, que seguiam até findarem em ternos pés, cujas unhas eram pintadas de azul. Não, não consigo descrever a profusão de sentimentos pela qual fui tomado. Por Deus, era linda demais! E eu cá, a uns quinze metros, reles mortal metido numa bermuda e todo molhado de mar. Contemplei-a um instante mais, até que ela volveu o rosto à minha direção. Sorriu. Retribuí, exibindo meus dentes não tão brancos como os dela. Súbito, uma prancha passou por mim. Finalmente vi os braços do surfista envolverem a minha miragem. As duas bocas se encontraram. E eu, sentindo-me triste e tolo ao mesmo tempo, tive de me contentar com a visão do papai noel de dez metros de altura, que adornava, grave e vermelho, o calçadão da Avenida Atlântica.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Terminal

E de repente aquela menina me pareceu tão triste! No alto do seu metro e dez, balançando a mãozinha numa despedida silenciosa, os olhos caídos e sem brilho. De dentro da blusa azul-turquesa, ela dava adeus. Mirou o ônibus uma vez mais, e através do vidro viu outro par de mãos a acenar. Não devia ter mais de seis anos, mas dava a impressão de ter vivido sessenta de desencontros. Como pode, pensei, tão nova e já sofrendo tal golpe? O avô puxou-lhe a manga, vamos minha filha. E ela foi. Deu as costas para o coletivo e avançou tremendo. Tão triste... Ela me lembrou você.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Qualquer Lugar, 14 de dezembro de 1990.

Mijei sentado esta manhã. Foda-se o que vão pensar. Mijei sentado com um copo de cerveja, dourada como a urina que eu expelia. Fiquei lá na privada, com as lembranças vindo como formigas carregando folhas. Pensava na merda em que está chafurdada minha vida, e pensei até sair a última gota. Chacoalhei, e foi como tivesse chacoalhado a mente - desanuviou-se a cabeça e roteirei o dia. Vidro sobre mármore, na pia, manchas líquidas que me evocavam seus lábios. Não fique se martelando, eu também não sei. E tampouco faço ideia do motivo de eu estar escrevendo isto. Sabe quando você sente a necessidade? É claro, ninguém manda uma carta contando como urinou no dia em questão. Mas até que é bom você ficar sabendo. Assim, não vai poder começar o invariável discurso de como eu sou machista e aquela porra toda que você sabe que diz. É engraçado, mas depois de um tempo irrita. Enfim, é isso. Hoje eu mijei sentado.

Te amo.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Marlboro Gold

Quando a conheci, ela fumava. Pretexto, lhe pedi um. Senti aqueles olhos de vidro e de água sobre mim, e sorri - não tinha nada a perder. Ela abriu o box. - Tem fogo? Eu tinha, mas não o admiti. - Acende aqui no meu, disse-me rindo, como soubesse e quisesse. Pois soube e quis. Com a boca, aproximei o meu bastão do dela, já pela metade. Transferiu-se o calor e ambos passaram a mandar sinais de fumaça. Não me afastei; não nos afastamos. Caíram os cigarros e ficaram lá conversando, vozes plúmbeas e vaporosas. O sabor eterno do fumo, para mim, veio acompanhado de arrepios.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

No seu íntimo se escondem aqueles 
sentimentos incautos e sóbrios. 
Os ébrios, ah!, os ébrios você já me apresentou. 
Conheci-os nas horas derretidas 
em que nossas línguas duelavam 
no mesmo vão.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Percepção

Descia as escadas rolantes em êxtase, impressionado com a grandeza do lugar e com as luzes de natal. Tudo era tão... Os olhos brilhantes e as mãos ávidas por poder tocar em todo aquele fascínio. Cheiro de pipoca e farfalhar de sacolas. Virava a cabeça, apontava, sorria. Como era bonito! Por um instante se viu com um brinquedo novo, um jipe elétrico talvez. Uma bola de verdade. Ousou até ganhar um computador. Fechou as pálpebras, sorrindo. Anotou na memória a sinestesia que vivia. Quem sabe no futuro ele poderia... Tropeçou ao final da escada, o sapato ficara preso. Caiu. Chorou. Ouviu as risadas. Não, aquele mundo não era dele.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Vício

Dona Inês havia dito para o filho parar, onde se viu tomar tanto café assim, ia fazer mal. Na verdade, ela achava que já estava fazendo. Vitor não era mais aquele rapaz e, nos últimos tempos, estava inalcançável; quando alguém lhe falava, era arredio.

A mãe punha a bebida em condição de origem do transtorno do filho. Proibiu-o indeterminadamente de apreciar o singular líquido negro. Ele explodiu. Puta e vaca foram termos muita vez utilizados. A senhora ouvia-o, em pranto, e lhe pedia que se acalmasse, que tudo bem, o deixaria tomar café de vez em quando. Vitor não dava a mínima, atordoado que estava. Possuído, assim sua mãe descreveria ao esposo o estado do filho.

Vitor quase bateu na progenitora, "você não sabe de nada!". Impediram-no a ponto de fazê-lo. O pai barrara-lhe o gesto e a coisa agora era entre os homens. Dona Inês foi em choque para o quarto atirar-se na cama e esvaziar-se toda em choro. Dali a pouco, apagou.

Abrindo as pálpebras, viu o marido a afagar-lhe os cabelos. "Ele foi embora". Ela descerrou os lábios, mas não pôde dizer coisa alguma. "É melhor pra todo mundo", repetia seu Joaquim, tentando acreditar na própria voz.

Dona Inês era dura consigo, "a culpa é minha", o que tinha demais no fato de o filho ter uma inclinação para o consumo excessivo do café? Só que, perdido lá no meio do emaranhado de pensamentos, ela sabia que estava certa, vira na tevê um médico falando que café demais podia causar problemas psíquicos. E ela não podia deixar o filho enveredar por essa senda. Cada dia mais magro, sangue na vista, olheiras escavadas - olhos de defunto, dissera a vizinha -, ele não conseguia não entornar uma garrafa completa por dia. No mínimo. E sempre trancado no quarto. Mas a proibição fora um revés. "Para onde ele foi?", perguntou, chorosa. "Não sei, querida", proferiu o marido, torcendo para ela crer.

Passou tempo, e ninguém na casa se atrevia a pronunciar qualquer vocábulo que remetesse aos acontecimentos. Dona Inês passava os dias vertendo lágrimas, em súplica silenciosa, "onde está meu filho, onde está meu filho?". Ela logo teria a reposta tão desejada. Meio mês mais tarde, o casal recebeu a notícia de que um corpo havia sido encontrado nas imediações da igreja de São José. Estava, agora, no IML. O único documento que havia delatava a filiação do cadáver. Foram reconhecer. À retirada do lençol, dona Inês cambaleou. O nariz do morto estava preto, com as veiazinhas rompidas e podres. "Crack", informou o legista. "Há bastante tempo". O marido tentava consolá-la, "fui injusta! é minha culpa! não era o café!"; e, ao mesmo tempo, conter seu próprio desespero. Ficaram aprisionados nos fatos, desnorteados. Até que os retiraram para uma sala contígua.

Após os trâmites e a óbvia confirmação de que o rapaz era de fato Vitor, uma funcionária chegou com um sorriso polido e pesaroso e uma bandeja nas mãos. Desprendia-se um vapor dançarino que rodopiava no ar. "Eu sinto muito. Os senhores aceitam um café?", perguntou educadamente. E, a não ser seu Joaquim, ninguém entendeu o motivo de Dona Inês súbito gritar um "não" desumano e cair inerte no piso azulejado, imaculadamente limpo.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Semáforo

- Droga, eu falei pra procurar as chaves depois. Olha aí, tá fechado.
- Calma, amor, é rápido.
- Rápido... é porque não é você quem está dirigindo. E esse ainda é daqueles de não sei quantos tempos.
- Relaxa, bota uma música e curte o momento.
- Curtir o momento?! Com essa porra de sol na cara e, pra completar, filtro de ar mais sujo que...
- Ai, amor, você tá muito estressado. Precisa de férias.
- É claro, vai dizer isso pro meu chefe!
- Credo, Rô! Já vi que hoje não tá dando pra conversar.
- E essa merda de sinal que não avança!
- Ficar nervoso só piora as coisas. O tempo é relativo. Tudo é relativo. Newton disse isso, não foi Newton?
- Não, meu Deus, foi Einstein. Ou Bohr. Ah, sei lá! Dá pra ficar quieta?
- Escuta aqui: não pensa que pode falar assim comigo! Não pode, ouviu?
- Tá, tá, chega!
- Mas você tá um porre mesmo hoje, hein? Te contar...
- E você não cala essa boca, Jesus! Não consegue...
- Rô...
- E ainda por cima quer me interromper...
- Rodolfo...
- Fica quieta!
- Os carros, Rodolfo!
- Mas o que é que têm os carros, droga?!
- Abriu, Rodolfo.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Mordimento

Na pia, a costumeira anarquia de objetos. Imersa na água espumenta, a escova morta. Amarela, cerdas macias, ainda com resquícios do gel dental azul com sabor de menta americana. O sabonete obstruía o ralo. Meteu a mão na massa mole e escorregadia e lavou a cara. Saiu sem se secar. Ao passar pela sala, pisando no macio tapete ornado com motivos orientais, sentiu a pontada familiar de nostalgia e arrependimento. Gostaria de retroceder no tempo, fazer com que as coisas acontecessem de outro modo. Mudaria, contudo, se o calendário voltasse? Ele mesmo tinha dúvidas se não faria tudo igual. Pediu perdão em silêncio, agora enxugando o rosto com a camiseta. Dirigiu-se à janela, e as recordações não cessavam. Palavras duras, soltas quase sem querer. Brilho metálico. Lágrimas. Viu o rosto em pranto, "por quê? por quê, meu filho?". O sol se desescondeu e incidiu em cheio no rosto dele. Foi bom. Vislumbrou as bolinhas vermelhas e vinho destacadas contra o mar de verde, lá fora, e sentiu a salivação. Foi colher as acerolas. Era a fruta preferida da mãe.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Horizontais

Na cama quente
Eu e você
Entrelaçados
Eu e você
Amores loucos
Eu e você
Delírio, breu
Você e eu