quinta-feira, 28 de abril de 2022

Le voyage d'un seul billet

Tu me demandes: comment arriver à mon coeur
Il ne faut qu’un petit trajet
Tu entres dans mon nez avec ton odeur
Puis tu continues tout droit dans mon cerveau
Tu cours en tournant les coins de mes veines
Au bout de ce chemin, tu arrêtes en face d’un solitaire feu rouge
Tu te trouves à la porte
Il ne faut pas frapper
C’est un coeur bête qui est toujours ouvert
Pour toi, le voyageur de mon corps

terça-feira, 22 de março de 2022

millennial adult journal #1

my youth is going down the drain
my soul seems to have taken the same train
the colors fade throughout the years

where is that revolutionary kid?
lost in in the middle of an endless feed?
just sitting there watching it all

can one wish time to turn back?
aren't we all just doomed to regret?
the unkissed mouths
the unlived adventures
the decisions that were not made because of fear
but what was i afraid of?

i can put an hourglass upside down
i can move backwards the hands of a clock
it won't make any difference though

'cause the path i took has brought me here
full of errors and wounds still not quite closed
and the desire (so human) of teleporting
the mind of now to the head of before 

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Les vies que j'ai vécues

un petit sonnet d'un apprenant


on me parle souvent des vies passées
des régressions et des esprits
j'y ai déjà cru, maintenant j'en ris
et de la foi d'hier, il n'y a plus assez

mais il y a longtemps que je pense
aux ans partis avant aujourd'hui
soudain je vois que tout me fuit
et donc, il ne me reste que la conscience

de que j'ai vraiment vécu plusieurs vies
je suis né encore et encore ici
mais pas comme des fantômes qui reviennent

au contraire, je mors et je renais en vivant
chaque douleur et chaque victoire je prends
et je me fais la somme de moi et moi-même

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Parafusos

Uma varanda e o tempo frio. De novo, você diria. Mas é que eu sou um ser redundante. Repito os dias tragando os mesmos cigarros que meu pai tragava em 1985. Não que eu apenas seja dado a nostalgias baratas, mas quase me espanta a progressão rápida e silenciosa que devora tudo o mais pela frente e deixa a gente como que no piloto automático. Um cotidiano fordista, a vida passa e eu operário aperto os parafusos soltos que ela me apresenta na comprida esteira cujo final todos sabem qual é.

Parafuso número 1. Abrir os olhos.

Por isso é que me permito multiplicar em vários, sempre. Vários eus, agindo da mesma maneira um pouco letárgica, com a mesma curvatura da coluna, a mesma xícara na mão e o velho gosto de tabaco. Se você estivesse aqui, se fosse ainda no começo, talvez me chamasse para entrar. Ou me oferecesse um café novo e quente para substituir o que ainda estava comigo. Quem sabe me trouxesse um cobertor velho e me deixasse com uma das minhas manias. Ficou tudo no subjuntivo. E, por mais que a gente saiba conjugá-lo, nenhuma gramática ensina a sobreviver-lhe.

Prafuso número 20. Bater o ponto.

Deve ser por isso que eu fico no pretérito. E calço ainda as botas que os que vieram antes de mim também usaram. Meus ouvidos escutam os acordes da Tropicália e minha boca canta as letras de revolução.

Parafuso número 57. Pagar as contas da casa.

Mas eu sou tão minúsculo quanto os átomos que me compõem. Como é possível algo cheio de vazio, como o átomo de Rutherford, dar forma a toda matéria? Hoje, você diria que talvez eu mesmo seja análogo a essas partículas, repleto de nada e ainda assim mórfico, palpável, sofrível. De modo que não há motivo para fingir.

Parafuso número 104. Comprar um carrinho de bebê.

Então, posso falar de suicídio com a naturalidade de quem discute os resultados da eleição. Quantas paixões! Mas não fabular sobre método ou data, e sim sobre o significado do ato em si. Se algo é feito de espaços vazios, que importa se vive ou morre? Ou é morto?

Parafuso número 583. Fechar os olhos.

Não que eu realmente vá concretizar alguma coisa. Porque, tudo bem, eu sou nada, mas trazido a forma. Sou meu próprio big bang diário. E, no final das contas, é essa explosão que mantém a gente em pé, na jornada incessante, de chave inglesa em riste, na linha de produção.

segunda-feira, 5 de março de 2018

Guerra

Disparem revólveres, pistolas, canhões
Brigadas que dispersam multidões
Passe década, século, milênio
Lancem bombas de gás lacrimogênio
Um coquetel molotov incendiando à vontade
Granadas voando em supervelocidade
Mísseis com alto poder de fogo vindos da Coreia do Norte
Arma nenhuma se mostrou mais forte
Que o teu olhar de desilusão
Tiro teleguiado na escuridão
Que me atinge, explode, estraçalha
Me deixa a jazer no campo de batalha
Com um mero estilingue na mão

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Priscila

Se a lâmpada do poste holofote fosse
Priscila seria vedete
Mas só da meia-noite às cinco
No outro dia seria manchete
Estampada em papel-jornal descartável
Rasgados, a saia e o corpete
E a pele recém-maquiada
Porque ousou sair montada
De casa, debaixo do sol

Esperava, tranquila, no ponto
A chegada da condução
E como na rua não tem holofote
Ela não foi vedete nem atração
Por ser registrada João
E ao mesmo tempo usar um decote
Calaram a voz de Priscila
E a ignorância falou mais forte

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Lixa

Sinto a tua falta nos mínimos detalhes desta casa. Inclusive no rolo de papel higiênico barato que comprei justamente porque era barato. Não é como aqueles que você comprava, folha dupla e desenhos de coelhinhos ou carneirinhos impressos na maciez branca que até dava mais vontade de cagar. Eu adorava isso em você, essa tua preocupação com a sensação que teria ao se limpar. No início eu cheguei a pensar que fosse um cuidado premeditado com a textura daquele pedaço inexplorado de pele, para mantê-lo incólume quando eu o fosse desbravar. Mas nós nunca chegamos a esse ponto, apesar de termos escondido uma versão de bolso do kama sutra embaixo da pasta de documentos na terceira gaveta do criado-mudo. Ainda assim, gostava de ver tua obstinação ao abastecermos o carrinho de compras, quando ficávamos mais tempo na seção de higiene pessoal do que na de hortifrutis – e olha que você era vegana.

Você dizia que é nosso dever cuidar do corpo em toda a sua extensão, mesmo lá. Afinal de contas, o ânus era de fato o primeiro orifício formado quando ainda não passávamos de um amontoado de células se dividindo sem parar, e lembrava as aulas do pré-vestibular e da faculdade, trazendo palavras difíceis como “deuterostômio” e dizendo que isso nos deixava no topo da cadeia evolutiva, juntamente com as estrelas-do-mar. Eu fingia recordar esses conceitos antigos, embora na realidade o maior legado do cursinho para mim tenha sido o  “puta velha não rejeita tarado”, e achava lindamente engraçada tua avidez ferrenha em defender coisas das quais quase ninguém fala a respeito, como a boa limpeza do cu. E isso é o que me dá tanta saudade, esse teu jeito incomum, poder discutir escatologias durante o jantar, falar de vômito e diarreia com a mesma naturalidade com que conversávamos sobre a nova cor da parede da sala, a situação política do país ou os efeitos do aquecimento global.

Quando a situação entre nós ficou insustentável e você decidiu ir embora, eu entendi. Mesmo assim, chorei mais do que ao ver aquele filme que veio errado dentro da capinha, queríamos uma comédia leve para a quarta-feira e acabamos desidratados, pondo a culpa no dono da locadora. Na tentativa de limpar o rosto, senti o toque aveludado dos coraçõezinhos em relevo e aí sim foi que a comporta abriu e as águas seguem rolando até hoje. Porque nas linhas demarcadas e nos picotes do papel estão as linhas e os poros da tua mão, do teu rosto, de você por inteiro, analisando minuciosamente as embalagens nas gôndolas do supermercado, escolhendo animais entre todo um zoológico disponível e fazendo discursos sobre o ato de evacuar.

Mas hoje eu comprei o mais barato, que não tem bichinhos e passa como lixa ao ser usado. Que nem o teu olhar quando você bateu a porta e não voltou mais.

domingo, 29 de maio de 2016

Flying saucers in the sky

Quando eu calço minhas botas velhas e coloco aquele casaco de couro de que você gostava e saio andando sem rumo pelo cinza da cidade, ouvindo uma música nova cuja letra acabei de decorar e sentindo o vento gelado atravessar cada célula do meu corpo, eu penso em nós dois em Londres. De fato, sigo cantando com meu sotaque britânico fajuto, sem me importar com outros pedestres que lançam olhares de julgamento, talvez pelo fato de eu não saber cantar ou apenas pela estranheza de se cantar no meio de uma calçada qualquer. Duas vidas baseadas em inverossímeis planos de mudança para o Reino Unido, fotos na faixa da Abbey Road, cervejas em minúsculos pubs irlandeses, kilts e uma volta na London Eye. Morando num modesto apartamento alugado por duzentas libras ao mês, com janelas cuja vista seria apenas mais e mais escadas de incêndio, mas que pela manhã permitiriam o cheiro do bacon e dos ovos, enquanto nós desejaríamos quase mortalmente encontrar um punhado de feijão carioquinha em algum mercado ou feira.

Mas nessa época tudo era brilhante e colorido aos nossos olhos. Seis meses de Cultura Inglesa, uns bicos aqui e ali pra juntar algum dinheiro, você fotografando o submundo alternativo das noites curitibanas e eu enviando contos para a Gazeta, o Paraná e mil revistas, imaginando publicações ininterruptas, resenhas favoráveis e pagamento semanal. Pronto. A partir de então era só ir. Só que às seis da manhã de domingo você batia lá em casa e dizia que, mais uma vez, trabalhou apenas por entrada e bebida liberadas. Eu, em contrapartida, piorava a situação ao mostrar mais um email dizendo polidamente que outro texto foi recusado, mas que, segundo as palavras do editor, havia muito potencial em minhas palavras e eu deveria tentar mais vezes.

Aquela fase em que já não se é mais adolescente, porém falta a segurança da idade adulta. Quando o fígado e as articulações ainda aguentam o tranco, mas faltam meios para providenciar o tranco a ser aguentado. Quando a gente descobre que viver sonhando é coisa para crianças e privilegiados, e tem que ouvir de toda a família que o seu irmão já fez uma poupança, sua prima está se dando bem em algum empreendimento, e que, por outro lado, eu só sei sentar com esse computador e tentar tirar dinheiro de umas historinhas sem-graça. Quando finalmente aceitamos essa verdade, é como se o próprio Big Ben implodisse e se esfarelasse e esparramasse seu pó sobre o chão, misturando-se com a neblina.

Talvez tenha sido nesse ponto que alguma coisa te disse que eu não tinha futuro. Nossas transas eram ok, nossas conversas eram ok, nossos amigos em comum eram ok. Nada era grandioso ou extraordinário, nada nos inflamava o peito e a mente, tudo era simplesmente ok. A não ser quando falávamos dos dias que viveríamos do outro lado do Atlântico. Só que os seis meses do cronograma passaram, eu não fiz o curso de inglês e estávamos como aos dezessete anos, só que você com vinte e cinco eu com vinte e seis. Quando até nossos planos de viagem morreram, decidimos sem falar que era o fim.

O que sei é que nunca mais fomos parte da mesma vida. Cheguei a pensar em ir aos bares que você fotografava, quem sabe te escrever um poema, mas decidi que tudo isso não faria diferença. Comecei a trabalhar num escritório, secretário do assistente do assistente do assistente. É onde estou. Não faço questão de saber seu paradeiro ou sua companhia, contanto que você não esteja tomando chá com limão às margens do Tâmisa. De todo o mapa-múndi, peço apenas que deixe esse pedaço para nós dois. Ou, que seja, uma lembrança do que já fomos. Quando cabines telefônicas e ônibus vermelhos eram sinônimos de felicidade e não me faziam chorar.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Sobre pavimentação urbana


é muito fácil tropeçar
nas pedras irregulares do calçamento desta cidade
você se arrisca, meio ausente de tudo
(da vida ao seu redor)
com seus fones fosforescentes na última altura
acendendo cigarros despreocupados
cantarolando as palavras de músicas quaisquer enquanto caminha
[sem prestar atenção
mas, uma vez que te veja,
quem tropeça sou eu
nos paralelepípedos pontudos
do trajeto até nós dois

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Astrologia

Começou o ano, sol no meu signo. Capricórnio. Se bem que todo mundo me fala que sou muito mais meu ascendente. Tenho a lua em Peixes. Na verdade, durante toda a minha vida nunca soube se acredito ou não nessa parada de horóscopo. Mas se até Santo Cristo acreditava, Macunaíma musical, quem sou eu para duvidar. De qualquer forma, faz calor. Suor escorrendo pelas costas e os pés queimando em cima da terra vermelha. Traz o ventilador e põe na velocidade máxima! Deus abençoe essa terra tropical. Largado nu na cama, fumo um cigarro.
O cigarro depois da punheta. A gente ouve tanto sobre o cigarro pós-sexo, pós-transa, pós-foda... mas ninguém nunca falou daquelas tragadas após o orgasmo handmade, ainda com um respingo de porra na ponta do dedo. Como se a masturbação fosse, digamos, uma arte inferior, pintura a dedo frente à Monalisa da penetração. Daí eu penso: qual é o fim único, o objetivo exclusivo de se bater uma? A punheta está aí apenas para dar prazer. O sexo também dá, mas essa é apenas uma das razões pelas quais mais e mais gente fode. Pergunte para aquele garotão de vinte e poucos anos que faz a alegria de umas madames do Country Club em troca de badulaques high-tech e retratos do Benjamin Franklin. Para a dona de casa que aguenta o marido obeso, suado e bêbado chegando de qualquer lugar e lhe metendo sem uma palavra. Términos, reconciliações, “você não consegue dormir? Eu também não”, o orgulho em não deixar vencer a camisinha...
Tudo bem, admito que isso é bem capricorniano. Racionalizar sobre quem ganharia uma disputa. Sexo e punheta no ringue. E o sexo ganha por nocaute. Só para deixar bem claro, curto transar. Curto bastante. Muito mesmo. Ou, pelo menos, costumava curtir. É só que me veio na cabeça o ostracismo da bronha. Aquela gozada ligeira na privada no meio do expediente, ou aquela mais calculada, longa, apreciada durante o banho no fim de um dia de trabalho. Aquele jato glorioso e solitário, irônico, após broxar mais uma vez no leito conjugal. A vontade de fumar é a mesma. E o chill da nicotina também, independente de qual o jeito de atingir o êxtase. Adoro essa palavra, êxtase. No fim, punhetar é mais um na enorme lista dos prazeres ocultos que todos temos, aquela bomba de chocolate com morango à qual o diabético tenta, sem sucesso, resistir.
Resistência. O ventilador que não refresca, o cigarro que já está acabando, o resto de sêmen que gruda nos pelinhos, essa época de promessas e metas e objetivos e resoluções. Vai passar de que cor? Não esquece as uvas e a lentilha! Deus me livre comer frango, tudo que cisca para trás dá azar no réveillon. Isso é superstição, é crendice. Mas já fiz todas. Simpatia. Olha que nome mais simpático. Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay. É sempre assim. Os astros dizem que esse ano vai ser diferente. Talvez seja mesmo, consegui uma ereção. Lázaro, levanta-te e anda. Sessenta e três anos não é fácil. When I’m sixty-four... dizia o Paul, mas a decadência começa antes. Eu realmente acho que eu nasci no mês errado, se é que isso funciona. Indeciso e sugestionável do jeito que sou. Eu devia ser de Libra.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Reencontro

Refestelada e eructante, saca da caixa um palito. Observando se ambas as pontas estão afiadas, esfrega a língua por todas as superfícies bucais alcançáveis, sentindo as últimas notas de sabor da refeição que acaba de ter. Leva a mão direita armada à boca, enquanto a esquerda faz de conta que é biombo, numa tentativa de esconder os mistérios de uma cavidade oral escura e secreta. Como os demais convivas displicentemente largados em suas cadeiras no estupor pós-prandial, inicia o processo de escavação dentária.

Enquanto ouve risadas misturando-se com o tilintar dos talheres sendo recolhidos e os borborigmos dos abdomes recém-satisfeitos, fecha os olhos e introduz a ponta daquele pedaço de madeira no espaço entre os incisivos inferiores. Fenda por fenda, dente por dente, vai esfregando os resíduos alimentares de forma lenta e delicada, repetida, movimentos de alavanca e vaivém que a fazem fechar os olhos e seguir com a função, trinta e dois beijos entre pinus verde e esmalte perolado.

Tem cinquenta anos e palita os dentes numa tarde de domingo. Cada gosto derradeiro que experimenta antes de engolir os pequenos restos antes aderidos fá-la lembrar a feitura dos pratos há pouco consumidos. De olhos ainda cerrados, cerra um pouco mais os dedos ao recordar o trabalho árduo e solitário de preparar o almoço de família. Sozinha na cozinha, sozinha nos outros cômodos da casa grande, de pé-direito alto, com jardinete francês e piscina, sozinha em si mesma. Pensa no marido sem vê-lo, sentado à sua frente, a redonda barriga a avolumar-se por sobre a calça, sempre reclamando da falta de variedade do cardápio. Ri consigo mesma ao pensar na enorme ironia. Ele, o mais monótono dos seres em suas opções de menu, vomitando comentários sobre ausência de diversidade culinária. Sente saudades do tempero antigo. Quando foi a última vez que sentiu verdadeiramente o gosto da pimenta?

No meio de dois molares tem um pedaço de carne. Preso. Difícil. Dirige a ponta do instrumento para o local, cavoucando, na ânsia sôfrega de retirar aquele naco proteico ainda não digerido – presença minúscula, mas que grita para ser notada. Enquanto tenta alcançar o objetivo, vislumbra o palito entrando no recesso escuro e dele saindo, mais uma vez, e outra, e novamente, e acelera o movimento da mão direita. Aperta as pálpebras com mais força, sentindo a extremidade aguçada machucar-lhe a gengiva, sangrando e doendo como uma segunda primeira vez. Esquecendo-se de onde está, começa a ofegar, remexendo os quadris na cadeira estofada e sussurrando ais, até sentir o retorno de um amigo há muito distante. O prazer que sente ao enfim soltar aquela partícula incrustada, que salta com a pressão do jorro quente que acompanha o êxtase dos homens.

domingo, 28 de junho de 2015

3 a.m.

Tinha um tango tocando no rádio
Enquanto eu divagava remoendo pensamentos imbatíveis
“tienes veinticinco años”
Ou algo assim
Não sei o que faço
Embora eu não tenha vinte e cinco
E tudo parece tão aleatório
Odeio madrugadas insones

terça-feira, 12 de maio de 2015

12 de maio de 2015

Você,

Ainda estou preso em superstições bobas como desvirar o tênis caído de boca pra baixo no chão. Ou comportamentos repetidos; fechar todas as portas do armário antes de dormir, checar mais de três vezes se o alarme do celular realmente foi ajustado para as seis e meia da manhã. Você chamaria isso de transtorno obsessivo-compulsivo. Eu prefiro dizer que são caprichos dominadores. Talvez apenas por ser uma forma mais poética de dizer a mesma coisa, você sempre apontava que eu tenho um fraco pela poesia cotidiana, ainda que barata, buscar palavras mais bonitas para disfarçar feiuras, perigos e distúrbios. De fato, este sou eu.

Escutando a chuva sapateando no telhado, penso que nenhuma onomatopeia que eu escreva sairá como o seu som das gotas caindo, seus lábios fazendo aquele barulho gostoso que me dava tanto ou mais conforto que a chuva em si. Confirmo mais uma vez que todas as tomadas estão desconectadas, já é a quarta. O medo de curto-circuitos nessa tarde de temporal é a desculpa com que cubro minha fixação. Uma delas, aliás.

Você, por outro lado, sempre foi tudo menos fixada. Já que já admiti o meu pendor pelo lirismo de supermercado, permita-me usar o clichê do espírito livre. O que, mesmo clichê, é verdade. Realmente, acho que clichês são o que são justamente por esse motivo. Você era do tipo desapegada. De religiões, de comportamentos, de ideias e, especialmente, de pessoas. Achava graça nos meus costumes meio-fé-meio-mandinga, porém ficava séria quando eu novamente contava os azulejos do banheiro. Só que, ainda que a preocupação fosse genuína, seu jeito de ser sem amarras, sem fincar raízes com força no chão como eu, esse seu jeito não te permitiu continuar aqui.

De modo que não fiquei surpreso quando, na última e maior briga, você me disse que iria embora. Aliás, não sei se "briga" é a palavra certa, tendo em vista que o que ocorreu aquele dia foi menos uma discussão que um monólogo seu. Se eu quis que você ficasse? Eu quis. Mas como competir com minhas próprias falhas evidentemente patológicas escancaradas em forma de lista? Fiquei, ao mesmo tempo que triste por você ter partido, aliviado por não mais atrapalhar sua vida de grão de pólen. Desejei sinceramente - ainda desejo - que os melhores ventos te levassem para outra flor, outra casa em que você pudesse finalmente ser em plenitude.

Pelo que fiquei aqui, lavando as mãos até a pele começar a rachar e aspirando apenas o ar, depois que tudo já estava cirurgicamente asséptico. Talvez eu devesse procurar ajuda. É o que você me recomendava de forma constante. Mas acredito que não vá encontrar substituto mais irônico do que essas minhas manias arraigadas (deixe-me chamar tais hábitos de manias, há um quê de excêntrico nisso), firmemente presas a mim, quando você era a mais solta dos seres. E você sabe que eu adoro ironias.

Eu

quinta-feira, 7 de maio de 2015

História de um início de romance

Poemeto de supermercado.

Na seção
Concessão
.
.
.
Uma sessão
.
.
.
Intersecção.




Lembro-me bem deste poema, que escrevi em 2010
depois de uma passada no supermercado.
Após presenciar um encontro e um sorriso, imaginei
o que poderia vir depois
e o utilizei num exercício de concisão e brincadeira sonora.
Na falta de algo novo, posto algo bem velho nesse dia
que, para mim, é especial.
Hoje este blog faz cinco anos.
Seguimos capengando, mas ainda estamos aqui.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Esteticite

Belas senhoras
com suas pernas cruzadas e unhas coloridas
folheando revistas velhas
sob a luz branca e estéril
da grande sala de espera

Aguardam, pacientes
suas consultas agendadas
peelings e preenchimentos
para parar o poder do tempo
A fonte da juventude
num feixe de raio laser

Uma amiga faz piada
"Essa aí vai morrer de esteticite"
A acusada nem pestaneja e responde
que morreria sem problemas
já que encontraria Jesus
sem uma única linha de expressão

sábado, 27 de setembro de 2014

Percurso

Hoje calcei meus tênis velhos e fui correr. Tinha chovido mais cedo, e o vento estava gelado como sua voz quando você me disse tchau. Coloquei a lista de músicas para tocar e, esforçando-me para vencer o frio, comecei a dar umas passadas tortas e desequilibradas. Sempre começo assim, meio cambaleando, até que depois de um ou dois minutos eu pego o ritmo. A batida da música e o som do solado no asfalto me fazem lembrar você. Eu olho à frente e a única coisa que vejo é o seu rabo-de-cavalo balançando da direita para a esquerda, repetidamente, compassadamente, numa cadência graciosa que eu não consigo acompanhar.
Cada árvore à beira do caminho lembra as árvores do parque onde a gente corria. Só que agora elas são você, rígida, estática, de cinco em cinco metros, ou dez, e toda vez que passo por uma delas é como se eu passasse pela sua frente e ouvisse novamente a sua despedida recém-saída do freezer. Tento me concentrar na música e na respiração. Mas a ofegância do exercício me leva rapidamente pro nosso antigo quarto, onde também havia ofegância. Ofegância dupla e sinestésica, tátil, audível, palpável. Sensível. Tento mudar para o ritmo das duas inspirações duas expirações para ver se você sai da minha cabeça. Não sai.
O sensor do celular avisa que já completei três quilômetros e meio. Gosto da voz sintética que me vem através dos fones de ouvido. Você acredita se eu te contar que troquei a voz do programa, de feminina para masculina? Porque mesmo produzida eletronicamente, quando escuto o timbre da moça da Nike, escuto o seu timbre. Loucura, eu sei. Mas que culpa eu tenho se te vejo em santinhos de candidatos, placas de carro com as suas iniciais, grafites nos muros dessa cidade cinza, e à minha frente, inalcançável, balançando o rabo-de-cavalo?

Sinto meu rosto molhado. Além de transpirar, estou chorando, para variar. Pois é, dei pra chorar toda vez que corro. Choro de dor nos tornozelos ao passar dos cinco quilômetros, mas choro principalmente por não ter com quem compartilhar minha ligeira alegria em conseguir correr cinco quilômetros. Porque foi você quem me tirou da minha inércia. Você quem me matou aos poucos com cada pisada do seu tênis vermelho e branco. Você quem me dava incentivos do tipo “anda, seu molenga! Tá correndo igual a uma moça!”. E esses incentivos funcionavam. E foi você, sempre você, quem me soprou uma massa de ar polar ao dizer uma única palavra. E é essa temperatura que eu tento desesperadamente subir com suor e lágrimas.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Bélico

Tenho dentro de mim
um campo de batalha
onde mil exércitos lutam, fiéis
cada qual a um diferente eu

Eu morro e eu mesmo triunfo
Eu canto vitórias e jazo ferido no chão
Eu sirvo a quem me vence, sirvo a mim
E, no final, ganho e perco a guerra eterna

Todas as espadas, no entanto, convergem
quando se trata da vitória maior
e cada gota do sangue derramado
se transforma em uma palavra.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Lugar algum

para ler (e concebido) ao som de Agoraphobia

Domingo. Ele acorda pela terceira vez e finalmente consegue se sentar na cama. Passa as mãos pelo rosto coberto com a barba que devia ter feito há muito tempo. Mais um dia. Levanta-se. Titubeia por um momento, mas, resignado, dirige-se ao banheiro. Olha para o rosto assimétrico que se mostra no espelho e tem pena de si mesmo, ainda que tente evitar este sentimento ao máximo. Mija. Dá a descarga e lava as mãos. Volta para o calor da cama. O relógio na mesinha mostra que já passou do meio-dia. Ele ouve um barulho e percebe que é o próprio estômago denunciando que não recebe alimento há mais horas do que seria aceitável. Não há nada em casa. Preciso comprar comida, pensa.

Duas horas da tarde. Ele ainda não comeu. Na verdade, está enrolado em três cobertores, agradecendo o fato de ter colocado blecaute no quarto. O escuro é confortável. Ou, mais precisamente, menos desconfortável. Sente a barriga roncar de novo e põe-se mais uma vez sentado. Veste a primeira calça que vê jogada no chão sujo. Uma pequena mancha branca, provavelmente resto acidental da última masturbação. Ele não liga. Pega um par de sapatos. Calça-os. Está pronto para sair, mas algo não permite. Experimenta outro par. Não. Tenta mais uma vez e mais uma e mais uma. Treze, ao todo. Mas nenhum deles o faz querer sair de casa.

Meia hora depois. Em pé, tremendo, afasta levemente as cortinas da janela do quarto. A luz que lhe invade os olhos é asfixiante e dolorosa. Assim que consegue abrir os olhos, percorre a rua lá embaixo. Mora num apartamento alto. Vê algumas pessoas caminhando, diminutas, no amplo espaço das calçadas. Pergunta-se como as pessoas conseguem. Queria ser como elas. Simplesmente sair por aí. Para comprar comida, para ir à farmácia, para tão somente sair. Mas algo o impede. Assim como a luz, esse algo lhe rouba o ar. E lhe desinquieta o peito. E lhe sacode as mãos.  Por isso, ele fecha as cortinas. E se enclausura novamente no macio abrigo de lã.

Ainda na cama. Ele sabe que isso não é bom. Sabe que não é saudável. E sabe que tem grandes problemas, ainda que não precise procurar um médico. Ou estar internado. Ou será que tudo não passa de uma frivolidade qualquer e não existe problema algum? Apenas um déficit de coragem. Nem ele sabe. Ele quer apenas ser. Mas o que é ser? E quem ele seria? Alguém que não consegue dar uns poucos passos fora do imaculado e abençoado lugar ao qual chama de lar? Seria isso que o definiria? Um medo inclemente, um medo invasivo, um medo parasita que lhe tolhe os pensamentos e o impede de estar em qualquer lugar aberto. Agorafobia. Ou não. Não poderia ser apenas uma falta de ar?

Levanta-se outra vez. Olha em redor. Uns móveis baratos, nada de luxo. Ele tem necessidades tão simples; ainda que tivesse todo o dinheiro, não compraria nada além do corriqueiro. Quem sabe umas revistas com a programação da tevê. Uns grãos de café, para que pudesse moer na hora do preparo – uma das poucas coisas que realmente apreciava. Esse tipo de ordinariedade. Consegue enfim chegar à porta. Fracamente, abre-a. Dá um passo hesitante para fora do santuário. É aí que,de uma forma enlouquecedoramente redundante, não consegue. Bate a porta. Gira a chave. Ele não quer ir a lugar algum.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Perguntas

A gente sempre tenta encontrar explicações praquelas coisas inefáveis, como se a falta de definição asfixiasse que nem a cabeça enfiada numa sacola. É uma falta de ar. Nessas noites sem sono de garoa fina a gente fica lá, olhando as gotinhas pequenas caírem sem rumo e pensando no porquê de tudo. Sentindo saudade de nada. Buscando entender um mínimo do que se vê e ouve e sente, para ter um minúsculo pontinho fixo no meio desse caleidoscópio que é a vida, e que quando a gente acha que decifrou a imagem balança e todas as cores e formas se misturam de novo e de repente. E é em outras bocas, novos chãos, mais das mesmas garrafas que a gente procura, ainda que afinal, afinal, afinal, a resposta-entre-aspas esteja dentro da gente. Ou é o que a gente espera. No fim do fim do fundo, do mundo, o que a gente quer é saber quem é.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Cinzas

soneto de fim de carnaval

Embriagado e esquecido na calçada
Chora Pierrot a ida de Colombina
Lágrima viva, que o rosto ilumina
E desliza devido à mulher amada

Arlequim intruso fez-se mostrar
À bela dama, que com ele partiu
O palhaço, com seu coração pueril
Não vê o visível, mas que azar!

É preto-e-branco solitário
Numa linda noite de tristeza
O que era éden virou calvário

A velha chama, outrora acesa
Jaz apagada no santuário
- Pierrot nunca fora fortaleza